Neto Lucon

“Não tenho medo de expor que sou casado com uma travesti”, diz Rafael Dantas, marido da militante Geovana Soares

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Por Neto Lucon (Fotos: Javier Valado e Italo Cristóvão)

Em meio a tantos ataques, desencontros, ferveções, lágrimas, transfobia e problematizações, é possível também encontrar lindas histórias de amor. Encontros inspiradores, laços que superam as adversidades e a escolha permanente de estar, sentir e caminhar juntos. Às vezes, trata-se de um olhar diferente para quem está ao seu lado e, pronto, tudo muda.

É o caso do relacionamento da militante transfeminista Geovana S Soares, de 25 anos, e do pizzaiolo cis Rafael Dantas, de 24, que iniciaram o namoro depois de uma forte amizade e de uma paixão platônica. E que hoje estão casados.

Há cinco anos, o encontro não poderia ser mais inusitado: debaixo de uma tenda de festa junina, se escondendo da chuva e se apertando para que não se molhassem. Olhares, risinhos e alguma insinuação de interesse? Que nada! Rafael pisou sem querer no pé de Geovana, que devolveu cheia de irônia: “O pé debaixo é meu”. Pedidos de desculpas e a festa seguiu em Aracajú com eles separados.

O pizzaiolo conta que se atraiu por Geovana desde o momento em que a viu. E que assim que chegou à sua casa, depois da festa, tratou de iniciar uma busca pelo Orkut e MSN (!!!). Convites aceitos, uma proximidade se iniciou, outros encontros surgiram, mas a amizade era o que prevalecia. Ele diz, contudo, que o sentimento por Geovana aumentava a cada dia. E que o amor platônico durou três longos anos.

Após um convite da transfeminista para conversar, Rafael foi até a casa dela em um domingo à noite. Foi a oportunidade para ambos finalmente deixarem o coração falar. “Ele estava muito sério e nervoso, e confessou que gostava de mim. Disse que vinha me amando em silêncio todo esse tempo, e que aquilo estava sufocando ele, mas que entenderia caso não fosse recíproco. Na hora eu fiquei tão sem reação que falei que amava ele também”, revela Geovana.

Ele lembra a data exata: dia 6 de abril de 2014. “Foi o que eu mais esperava: ‘Ser retribuído pelos mesmos sentimentos que eu tinha por ela’. Nessa conversa ela me falou tudo que pensava e sentia por mim, como também quis saber o que eu sentia e pensava sobre ela. Foi uma longa e emocionante conversa, sendo ela o início da nossa união e o momento que marcou nossas vidas”. Ounnn…

PRECONCEITOS E UNIÃO

Rótulos! Quem liga para rótulos quando se está apaixonado? O casal em questão até poderia não se importar, mas houve quem olhasse torto e que disseminasse o seu preconceito.
Um dos casos que marcaram Rafael foi quando o casal estava dentro de um ônibus e uma criança apareceu, rindo deles e apontando os dois para os pais. “Entendemos que era devido à nossa união e pelo fato de a criança reconhecer que eu estava ao lado de uma travesti”, lamenta.
Pela profissão, ele diz que lida todos os dias com todos os tipos de pessoas e com todos os tipos de preconceito. Rafael também sofreu preconceito da própria família, que depois de um longo processo reconheceu e entendeu a união. “Amigos e a sociedade em geral ainda é um problema referente a isso. A falta de conhecimento, o desinteresse em entender e a ignorância motiva o preconceito sobre a nossa união e até mesmo sobre cada um de nós”, diz.

E como eles lidam com o preconceito? Enquanto Geovana afirma ser mais explosiva – “estou ficando mais paciente”, Rafael simplesmente ignora os preconceituosos de plantão. “As pessoas têm de entender que cada um tem a liberdade e opção de viver a vida como bem quiser. Simplesmente vivo a minha vida independente do que as pessoas acham ou pensam”.

NAMORAR UMA TRAVESTI/ NAMORAR UM HOMEM CIS

Morando juntos há dois anos, Geovana afirma que o mais complicado de ser casada com uma pessoa cisgênera é que ela muitas vezes não entende o peso de ser trans no país que mais mata travesti no mundo. E que tem que estar munida de muita paciência para sensibilizar e ensinar.

Já Rafael alega que o mais complicado é o fato de adentrar em questões que anteriormente jamais havia pensado. Ele admite que, antes de se relacionar com Geovana, não sabia sequer a melhor maneira de tratar uma travesti: ele ou ela. (para os desavisados, é sempre no feminino, viu? É elA).

Antes eu não entendia sobre o assunto e, hoje, devido ao fato de ela ser militante, aprendi a entender de verdade a travestilidade. Foi o melhor aprendizado que tive, afinal hoje posso explicar para as pessoas que tem dificuldades em lidar com o assunto e vejo o quanto é bom ver as pessoas falando de maneira correta. Sei da importância da militância, incentivo a Geovana e participo sempre que possível”, diz.

Ele afirma que considera Geovana muito fofa quando ela dá palestras e se entrosa com as pessoas dispostas em entender a travestilidade. “Ela se sente tão feliz que chega a ser fofo a aparência dela. Vejo que luta pelo que ela representa e pelas outras travestis”. 

Na vida a dois e longe das especulações a respeito das caixinhas “trans” e “cis”, a transfeminista diz que se encanta com o jeito carinhoso e companheiro do marido. “Gosto muito de ver filme de heróis com ele, pois eu sempre gostei desse tipo de filme”. O pizzaiolo também afirma que gosta de fazer tudo ao lado da esposa. “Para mim, o melhor é ficarmos em casa juntos, fazendo de uma coisa bem simples ser a melhor para nós dois. Na verdade, tudo que eu queira fazer só tem graça com ela ao meu lado”.

CONFISSÕES

O que vocês gostariam de dizer um para o outro que não disseram até hoje?
Rafael: Diria que a amo do jeitinho que ela é e que estarei junto a ela para bater de frente com o preconceito que as pessoas pregam. A sociedade precisa entender que não tenho medo de me expor, independente do que elas pensam por eu ser casado com uma travesti.

Geovana: Diria que sei o quanto sou complicada por conta do meu jeito de ser. E agradeço a ele pela insistência e paciência depois de todos esses anos ao meu lado.

Ambos afirmam já se sentirem casados, apesar de não terem oficializado judicialmente a relação. Geovana diz sonhar com uma cerimônia e defende que atualmente não pensa em filhos – “depois que fui tia, vi o trabalhão que dá e prefiro os meus dois felinos”. Mas Rafael frisa que, sim, “filhos estão nos nossos planos”.
“Queremos mostrar para a sociedade que também somos uma família, unida, completa, que também sonha, que tem planos e é feliz. Talvez isso sirva de exemplo para outras pessoas”, declara ele.

SOLIDÃO E HOMENS DE VERDADE

Poderíamos ter encerrado o perfil do casal no parágrafo acima. Mas a história de Geovana e Rafael não reflete a realidade de grande parte das travestis e mulheres transexuais.

Isso porque, motivado pelo medo de sofrerem preconceito, pela transfobia e pela construção social cisnormativa, que impõe que relacionamentos se deêm somente entre pessoas cisgêneras, muitos homens que se relacionam com a população trans não assumem o relacionamento.

Terminam vivenciando as afetividades construídas através de uma estrutura transfóbica e até abusiva. Vide homens que evitam sair com suas parceiras trans em lugares públicos ou que se envolvem com travestis somente entre quatro paredes.

A transfeminista afirma que Rafael é o primeiro homem que assume publicamente a relação. E que isso é prova de que anda faltando “homens de verdade” em nossa sociedade. “Isso vale para todos, cis e trans”, aponta.

Para os homens que se interessam por trans, mas que têm medo do que podem enfrentar, Rafael aconselha: “Não existe preconceito. O que existe são pessoas ignorantes que desmerecem a felicidade do próximo. O fato de não se expor por conta do preconceito o torna preconceituoso de si próprio. Sou feliz por ser quem sou e não escondo nem temo o que as pessoas veem de mim.

Não esconderei jamais o quanto sinto-me feliz, completo e amado cada dia da minha vida por saber que encontrei a pessoa que se encaixa a mim e que amo de verdade, sendo ela travesti”.

Gente, é muito amor!

 

***

“Non ho paura di dire che sono sposato con un travestito”, afferma Rafael Dantas, marito della militante Geovana Soares

Tra tanti attacchi, disallineamenti, lacrime, transfobia e problemi, puoi anche trovare bellissime storie d’amore. Incontri stimolanti, legami che superano le avversità e la scelta permanente di essere, sentire e camminare insieme. A volte è uno sguardo diverso su chi è al tuo fianco e basta, tutto cambia. È il caso del rapporto tra l’attivista trans di 25 anni Geovana S Soares e il pizzaiolo di 24 anni cis Rafael Dantas, che hanno iniziato a frequentarsi dopo una forte amicizia e una passione platonica. E che oggi sono sposati.

Cinque anni fa, l’incontro non poteva essere più insolito: sotto una tenda della festa di giugno, nascondendosi dalla pioggia e cercando di non bagnarsi. Sguardi, risatine e qualche suggerimento di interesse? Niente! Rafael fece un passo involontario sul piede di Geovana, che commentò con ironia: “Il tuo piede è più piccolo del mio”. Si scusarono e continuarono la festa ad Aracaju ognuno per conto proprio.

Il pizzaiolo dice di essere stato attratto da Geovana dal momento in cui l’ha vista. E che non appena è arrivato a casa sua, dopo la festa, ha iniziato a cercarla su Orkut e MSN (!!!). Lei accettò l’invito e iniziarano a frequentarsi, ma da amici. Rafael dice, tuttavia, che il sentimento per Geovana è aumentato ogni giorno. E quell’amore platonico è durato tre lunghi anni.

Dopo un invito della trans, Rafael è andato a casa sua una domenica sera. È stata l’occasione per entrambi di lasciare finalmente parlare i loro cuori. “Era molto serio e nervoso e ha confessato che gli piacevo. Disse che mi aveva amato in silenzio per tutto quel tempo e che lo stava soffocando, ma avrebbe capito se non fosse stato reciproco. All’epoca ero così insensibile che ho detto che lo amavo anche io”, afferma Geovana.

Ricorda la data esatta: 6 aprile 2014. “Era quello che mi aspettavo di più, essere ricambiato per gli stessi sentimenti che provavo per lei “. In quella conversazione mi raccontò tutto ciò che pensava e provava per me, oltre a chiedersi cosa provassi e pensassi di lei. È stata una conversazione lunga ed eccitante, l’inizio della nostra unione e il momento che ha segnato le nostre vite.” Ounnn…

Pregiudizio e Unione

Etichette! A chi importa delle etichette quando sei innamorato? Alla coppia in questione potrebbe non interessare nemmeno, ma c’erano quelli che sembravano risentiti e diffondevano il loro pregiudizio.
Uno dei casi che ha segnato Rafael è stato quando la coppia era su un autobus e un bambino ha iniziato a ridere di loro, indicandoli entrambi ai genitori. “Comprendiamo che è stato a causa della nostra unione e del fatto che il bambino ha riconosciuto che ero accanto a un travestito“, si lamenta.
Di professione, afferma di avere a che fare con tutti i tipi di persone ogni giorno e con ogni tipo di pregiudizio. Rafael ha anche sofferto pregiudizi dalla sua stessa famiglia, che dopo un lungo periodo ha compreso e accettato la sua relazione. “Gli amici e la società in generale rappresentano ancora un problema. La mancanza di conoscenza, la mancanza di interesse per la comprensione e l’ignoranza motivano i pregiudizi sulla nostra unione e persino su ciascuno di noi”, afferma.

E come affrontano i pregiudizi? Mentre Geovana afferma di essere più esplosiva – “sto diventando più paziente“, Rafael ignora semplicemente i pregiudizi di turno. “Le persone devono capire che tutti hanno la libertà e l’opzione di vivere la vita come vogliono. Semplicemente vivo la mia vita, qualunque cosa la gente pensi o pensi”.

Uscire con una travestita / uscire con un uomo Cis

Vivendo insieme da due anni, Geovana afferma che la cosa più difficile dell’essere sposata con una persona cisgender è che spesso non capisce il peso di essere trans nel paese che uccide i travestiti del mondo. E devi essere molto paziente per sensibilizzare e insegnare.
Rafael afferma che più complicato è il fatto di affrontare problemi a cui in precedenza non aveva mai pensato. Ammette che, prima di relazionarsi con Geovana, non conosceva nemmeno il modo migliore di trattare una persona travestita: lui o lei. (Per gli ignari, è sempre nel femminile).

Prima non l’avevo capito e oggi, poiché è una militante, ho imparato a capire davvero la parodia. È stato l’apprendimento migliore che ho avuto, perché oggi posso spiegare alle persone che hanno difficoltà a trattare l’argomento e vedo quanto è bello quando si esprimono correttamente. Conosco l’importanza dell’attivismo, incoraggio Geovana e partecipo ogni volta che è possibile“, afferma.

Dice che considera Geovana molto carina quando tiene conferenze e si confonde con persone disposte a capire le travestite. “È così felice e carina. Vedo che combatte per ciò che rappresenta e per gli altri travestiti.”
Nella vita insieme e lontano dalla speculazione sulle definizioni di “trans” e “cis“, la trans afferma di essere incantata dal modo affettuoso del marito. “Adoro guardare gli eroi con lui, perché mi è sempre piaciuto quel tipo di film.” Il pizzaiolo afferma anche che gli piace fare tutto accanto a sua moglie. “Per me, è meglio stare a casa insieme, facendo una cosa semplice per entrambi. In effetti, tutto ciò che voglio fare è divertirmi con lei al mio fianco.”

CONFESSIONI

Cosa vorresti dirti che non hai detto fino ad oggi?

Rafael: Direi che la amo così com’è e che sarò con lei per affrontare il pregiudizio che la gente predica. La società ha bisogno di capire che non ho paura di esporre me stesso, indipendentemente dal fatto che pensano che sono sposato a una travestita.
Geovana: Direi che so quanto sono complicata a causa del mio modo di essere. E lo ringrazio per la sua insistenza e pazienza dopo tutti questi anni con me.

Entrambi affermano di sentirsi già sposati, sebbene non abbiano formalizzato la relazione in tribunale. Geovana dice che sogna una cerimonia e sostiene che al momento non pensa ai bambini – “sono una zia, ho visto il duro lavoro e preferisco i miei due gatti“. Rafael sottolinea che, sì, “i bambini sono nei nostri piani”. “Vogliamo dimostrare alla società che siamo anche una famiglia, unita, completa, che sogna, ha piani ed è felice. Forse questo servirà da esempio per altre persone“, afferma.

Solitudine e uomini veri

Avremmo potuto finire il profilo della coppia nel paragrafo sopra. Ma la storia di Geovana e Rafael non riflette la realtà della maggior parte delle persone travestite e delle donne transgender.
Questo perché, per paura del pregiudizio, della transfobia e della costruzione sociale cisnormativa, che impone che le relazioni avvengano solo tra persone cisgender, molti uomini che si relazionano con le trans non dichiarano la relazione. Finiscono per sperimentare le affettività costruite attraverso una struttura transfobica e persino abusiva. Vedi uomini che evitano di uscire con le loro partner in luoghi pubblici o che frequentano travestite solo all’interno di quattro mura.
La trans afferma che Rafael è il primo uomo a vivere pubblicamente la relazione. E questa è la prova che c’è una mancanza di “uomini veri” nella nostra società. “Questo vale per tutti, cis e trans”, dice.

Per gli uomini che sono interessati alle trans, ma hanno paura di ciò che possono affrontare, Rafael consiglia: “non ci sono pregiudizi. Ciò che esiste sono le persone ignoranti che sminuiscono la felicità degli altri. Non esporsi a causa del pregiudizio ti rende autolesionista. Sono felice di essere quello che sono e non nascondo o temo ciò che la gente vede di me. Non nasconderò mai quanto sono felice, completo e amato ogni giorno della mia vita sapendo di aver trovato la persona giusta a e che amo davvero, anche se è una travestita”. Ragazzi, questo si che è amore!

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