Neto Lucon

FtoM: Entrevista a Henrique Lunardi, 1º homem trans da PM-SP

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Farda, acessórios, armamento e o nome masculino identificado no peitoral. Henrique Lunardi poderia ser lido como qualquer outro Policial Militar de Ituverava, município do Estado de São Paulo. Mas decidiu falar um pouco de sua trajetória pioneira para levantar a bandeira nas cores azul, branco e rosa, que simboliza a luta das pessoas trans, e assim transformar dentro e fora da instituição.

Em primeira mão ao site e canal NLUCON, Henrique Lunardi conta que o processo de se perceber homem trans – isto é, ele foi designado mulher ao nascer, se identifica com o gênero masculino e é um homem – ocorreu quando já atuava como policial militar. Não que deixasse de ser anteriormente. Ele apenas não conseguia colocar em palavras o desconforto que sempre sentiu.

O encontro com sua verdadeira identidade ocorreu por meio de consultas em uma psicóloga particular. Ainda assim havia não disse ao mundo imediante que era Henrique pelo receio de sofrer preconceito dentro da instituição. “Eu tinha na cabeça que as pessoas trans e travestis sempre foram muito marginalizadas, então eu pensava assim: vou ser mandado embora porque eu sou diferente. Eu tinha preconceito comigo mesmo e achava que era motivo de exclusão” disse.

Mas durante uma aula do estágio de aperfeiçoamento profissional ele tomou conhecimento do decreto 55.588/2010, que garante o respeito ao nome social e identidade de gênero de pessoas trans nos órgãos públicos do Estado de São Paulo. Como era funcionário público, a ficha caiu. Foi a partir daí que ele traçou um caminho, por vias administrativas, para ser reconhecido em sua verdadeira identidade de gênero e para, como ele mesmo diz, ser feliz profissionalmente e pessoalmente.

A entrevista aborda os bastidores do processo, a relação com outros policiais, os desafios dentro da profissão e a violência policial. Na repercussão do bate-papo no Youtube, que soma mais de 15 mil visualizações, Henrique é visto por muitas pessoas como uma possibilidade de mudança dentro de uma instituição que historicamente travou embates com a população trans – sobretudo as travestis e as profissionais do sexo. Ele também recebe críticas por esse mesmo motivo. Para o PM, estar dentro da corporação nada mais é que um elo de visibilidade e respeito à população trans.

Como surgiu a vontade de ser policial militar?
Consciente ou inconsciente eu sempre quis proteger as pessoas. Começou com as pessoas próximas a mim, minha família e posteriormente meus amigos. Eu sempre quis evitar conflitos. Então isso foi como uma orientação e eu acabei optando pela segurança pública. Anteriormente eu fazia faculdade. Eu larguei a faculdade para virar Policial Militar.

Você cursava qual faculdade?
Fazia Engenharia da Computação. Era uma coisa distinta, muito diferente (do que faço hoje). E daí, sei lá, eu falei: vou prestar para esse negócio aqui (risos). Eu também prestei para agente penitenciário, porque eu tenho um primo e sempre admirei o trabalho dele. No meio disso, eu prestei para soldado da polícia militar. Foi um concurso próximo do outro, enquanto eu aguardava o resultado das fases de um, eu estava passando pelas fases do outro. Passei em ambos, tomando posse na polícia militar.

Quando você entrou para a Polícia Militar você já havia dito ao mundo que você é o Henrique e que é um homem trans?
Não. Eu entrei em 2015 e em 2016 eu procurei a psicóloga com as questões (referentes minha identidade de gênero). Porque eu havia tomado conhecimento que havia uma definição para como eu me sentia. Eu já havia visto outros casos de homens trans, mas é uma coisa pouco falada, porque o que eu conhecia eram as travestis. Em 2017, eu tive que preparar muito, porque é uma coisa que tem que pensar demais se você vai ou não prosseguir com isso (com a transição). Eu tinha na cabeça que as pessoas trans e travestis sempre foram muito marginalizadas, então eu pensava assim: vou ser mandado embora porque eu sou diferente. Eu tinha preconceito comigo mesmo e achava que era motivo de exclusão. Até porque antes falavam transexualismo, era visto como doença. Mas eu via dessa forma porque me mostraram dessa forma, então independentemente de eu estar na instituição que eu estou, se eu estivesse em qualquer outro emprego eu sentiria esse mesmo medo.

Até porque 90% das travestis, segundo a Antra (Associação Nacional das Travestis e Transexuais), está inserida na prostituição. Muitas delas não porque querem – caso quisessem, seria algo legítimo, pois é uma profissão que merece ser regularizada – mas por todo o preconceito que as levam para apenas esse caminho.

Por toda a marginalização que a sociedade fez, né?
Exato.

E como sua família reagiu?
Eu tive liberdade para falar a respeito. Primeiro eu tive que falar que gostava de garotas, porque não tinha conhecimento na época que sou uma pessoa trans. A primeira reação da minha família, da minha mãe e da minha irmã, foi de preconceito nessa primeira fase. Depois, quando eu fui para a psicóloga, eu consegui levar a questão (trans) para dentro de casa. Quem me acolheu mesmo foi meu irmão mais novo e isso significou muito para mim. Ele falou: “Beleza, vou te amar do mesmo jeito, não mudou nada”. Foi o primeiro que tentou a me tratar no masculino, que a minha mãe falava de uma forma e ele corrigia. Depois disso, a minha mãe percebeu o sofrimento que eu tinha com o meu próprio corpo, como eu reagia, como eu estava triste. Apesar de eu estar feliz na minha área profissional, na minha área pessoal eu estava frustrado, porque eu não conseguia assumir a minha identidade. Eu tinha medo do que as pessoas iam pensar e que eu ficassem sozinho. Mas todos me deram força. Sempre tem quem dizia: “Você é bonita demais, você vai fazer isso e vai estragar você”. Daí hoje eu digo: “Antes eu era gata, hoje eu sou gato” (risos).

Apesar de ser acolhido dentro de casa, tinha a questão profissional. Como se deu falar que é homem trans dentro da polícia?
Primeiramente eu pesquisei muito a respeito se em algum lugar do Brasil tinha algum Policial Militar Trans. Teve um só que eu encontrei de Pernambuco, mas não tinha nada mais a respeito e achei que pudesse ser fake news. Em um estágio de aperfeiçoamento profissional, uma das matérias foi de atualização jurídica e um comandante de companhia falou sobre um decreto. O 55.588/2010, que fala a respeito do tratamento das pessoas trans e travestis dentro das repartições públicas no Estado de SP. A partir disso eu pensei: “Se eu quiser ser reconhecido, ter o meu nome social respeitado, eu tenho que demonstrar o meu interesse”. Aí eu tinha uma fonte de resguardo jurídico: no Estado de SP toda pessoa trans tem o direito de ser tratada pelo meu nome social e identidade de gênero dentro das repartições públicas e eu sou um funcionário público. Aí comecei a juntar as coisas.

O que você fez?
A partir desse momento, quanto eu tinha um psicológico mais bem preparado e uma coragem para arriscar tudo. Porque eu ainda tinha medo de perder o meu emprego, mas tinha que pensar: “Eu posso perder, mas eu quero ser feliz? Ou eu quero levar uma vida infeliz pessoalmente e ser feliz no trabalho?”. Como não tinha nenhum caso e um modelo de como prosseguir, eu pedi passar pelo psicólogo da PM, o qual me orientou a fazer um documento pedindo orientação de como deveria prosseguir para ter o meu nome social respeitado e para iniciar a terapia hormonal. Eu fiz esse documento, que foi para o comandante de companhia – aquele que havia falado sobre o decreto – e ele foi me orientando o que eu deveria fazer. Foi a partir daí que eu dei início. Sempre tive muito isso de fazer pelo correto, quis estar amparado. Não quis fazer de qualquer jeito.

Você chegou a falar sobre ser homem trans com os colegas?
Diretamente eu não cheguei a conversar com ninguém antes de pedir a orientação e de prosseguir. Mas depois que eu já havia feito o documento, cheguei a trocar ideia com meu parceiro de serviço, um sargento. Eu esperava que houvesse preconceito por ele ser mais velho e achar que seria difícil de colocar na cabeça. Mas não houve, eu fui muito bem aceito por ele e ele me incentivou muito de uma forma ou de outra. Ele dizia: “Vai com calma… Vai confiante que vai dar certo!”.

Você conseguiu ser acolhido por vias administrativas, mas como é o convívio diário? A transfobia te acometeu de alguma maneira?
Na unidade em que eu trabalho não sofri nenhum tipo de transfobia. Pelo menos não diretamente, não que eu tenha percebido. Mas o preconceito é aquilo que falei: eu tinha preconceito, porque não conhecia. O que eu posso falar do que vi e presenciei é que depois que eu assumi isso dentro da instituição, os meus colegas de serviço não vieram me criticar. Eles vieram perguntar para mim como era, como me sentia, o que era aquilo mesmo, porque eles não tinham contato. Fui um elo para levar a informação dentro da instituição. Como eu estava meu serviço, eles não sentiram diferença de antes e depois, porque continuei com a mesma capacidade, executando as mesmas tarefas e de forma profissional. Então isso não interferiu no meu serviço, isso é a minha vida pessoal. O que mudou foi isso: eu deixei de parecer uma mulher, agora eu sou visto e reconhecido como eu sempre me senti.

Uniforme, nome social, tudo isso passou a ser garantido dentro da PM?
Atualmente eu já fiz a retificação dos meus documentos. É importante falar que todo homem trans que fizer a retificação precisa ir até o serviço militar obrigatório para pedir dispensa militar. Porque para fazer faculdade, conseguir emprego, tudo você vai precisar da sua dispensa. E é algo muito simples e que você vai precisar. Com a minha retificação de documentos, eu já atualizei tudo. Mas antes disso eu tinha solicitado o uso do nome social e a instituição autorizou. Eles me deram o direito de usar o uniforme do sexo masculino, a usar os acessórios e corte de cabelo do sexo masculino. É engraçado porque eu tinha um cabelo bem volumoso e a primeira coisa que eu fiz quando autorizaram era ir lá e rapar. Sempre tive essa vontade. Atualmente eu utilizo um alojamento a apartado, nem masculino nem feminino. A policia se preocupa tanto que não queria me deixar constrangido, dizendo que assim que eu fizesse a cirurgia no peitoral e me sentisse confortável eu teria o direito do alojamento masculino. Atualmente não frequento, pois minha cirurgia é frequente e ainda eu sinto vergonha de tirar a camiseta.

Ao longo da história, a população trans teve embates com a polícia militar. Você recebe críticas de pessoas trans por ser policial militar e homem trans?
Recentemente eu fiz um vídeo no mês da Visibilidade Trans e eu fui ofendido por uma militante travesti por ser policial militar. Ela dizia que eu não poderia ser trans e policial militar, que eu não era um militante representável, que eu não podia querer levantar a bandeira. Acho que se você for fazer uma crítica, que faça uma crítica, mas não uma ofensa. O principal lugar que a gente deveria ser respeitado é no meio em que a gente faz parte, e quando você recebe uma ofensa nesse meio machuca muito mais. Porque lá fora o pessoal não conhece a respeito, mas essas pessoas conhecem.

Anteriormente a sociedade tinha uma visão da polícia, que era bruta e agressiva. Mas hoje, na instituição que eu trabalho, que a gente trabalha com uma política de polícia comunitária. O nosso contato com a população é totalmente diferente do que era. Inclusive tem um programa nosso chamado vizinhança solidária, que é feito nos bairros. Vários moradores criam um grupo de WhatsApp e nele sempre tem um Policial Militar. Quando acontece qualquer irregularidade no bairro, você vai jogar no grupo e o policial militar vai trabalhar em cima disso, fazer um patrulhamento ostensivo e preventivo. Então a proximidade da população é muito mais com a polícia.

Mas vale lembrar que você fala da sua vivência dentro da polícia militar de Ituverava, município de São Paulo, né?
Isso, eu trabalho em Ituverava, na rua. A gente atende as ocorrências que são despachadas pelo 190 e também quando deparamos com ocorrência na rua. Por exemplo, você pode estar passando na rua, vê uma coisa irregular, chama a viatura e pode fazer um contato com a gente para passar qualquer coisa.

Qual é o paralelo que dá para fazer desse passado e dos casos em que a Polícia ainda é violenta com a população trans e com o fato de termos pela primeira vez um homem trans neste espaço?
A polícia militar é formada por pessoas da sociedade. Então se a gente tirar essa raiz de preconceito que as pessoas tem, não só na instituição que eu estou, mas fora, isso já vai mudar. É como eu falei: o preconceito surge daquilo que a gente não conhece. Então a falta de informação muitas vezes acaba levando a pessoa a ter um tratamento com a outra de uma forma desrespeitosa. A visibilidade que eu levo dentro da instituição é uma visibilidade importante, porque as pessoas precisam ter contato, saber como tratar uma pessoa trans, como tratar uma pessoa travesti.  Se a gente não se inserir, não se esforçar para tentar contribuir de alguma forma para levar o conhecimento, essa visão que a população tem das pessoas trans vai continuar sendo marginalizada. Essa é a diferença: a mudança já começou. Eu estou aqui dentro, sou um soldado da polícia militar. Quando eu ia imaginar ser um PM, um funcionário público e ser trans? Para mim, era impossível.

Eu não quero ficar te atacando nas perguntas, pois o objetivo não é esse. Mas preciso falar que a polícia militar ainda é vista como violenta, sobretudo contra a população trans, negra, pelos movimentos sociais… Há recomendação de preconceito? O que tem de verdade e de mentira?
A instituição em si não tem nenhum tipo de preconceito, tanto que ela presa pela legalidade. Tenho todos os meus direitos resguardados. O único lugar que eu teria todos os meus direitos respeitados é dentro da Polícia Militar. Se você me ofender, você vai ser punido por isso. Eu posso falar isso porque estou lá dentro. Acho que as pessoas tinham que reformular a visão que elas têm, porque a polícia não é inimiga. Tanto que qualquer situação que você não souber resolver, atrito, a primeira coisa que você vai pensar é para ligar pro 190. Na cidade onde eu trabalho não tem bombeiro, então quando uma casa está pegando fogo as pessoas ligam para a polícia. Eu entro para trabalhar 12 horas de serviço na rua, para cuidar de pessoas que eu não conheço, sem distinção nenhuma. Estou lá para tentar auxiliar de alguma forma.

Para um homem que está acompanhando essa entrevista e que tem vontade de ser Policial Militar, qual é a dica que você dá para ele?
Não tem dica. Se por acaso você pensou em ser Policial Militar e achou que era impossível, eu sou exemplo que não é. Não desista dos seus sonhos.

***
Il primo trans uomo Henrique Lunardi afferma di agire come collegamento informativo e di combattere la transfobia

Uniforme, accessori, armamento e il nome maschile identificativo sulla corazza. Henrique Lunardi poteva essere un qualsiasi altro ufficiale di polizia militare di Ituverava, comune dello stato di San Paolo. Ma ha deciso di parlare un po’ della sua traiettoria pionieristica per innalzare la bandiera in blu, bianco e rosa, che simboleggia la lotta delle persone trans, e quindi trasformarsi all’interno e all’esterno dell’istituzione.
Di prima mano sul sito web e sul canale NLUCON, Henrique afferma che il processo di percezione di un uomo trans – cioè, che è stato designato come donna alla nascita ma si identifica con il genere maschile ed è un uomo – si è verificato quando stava già lavorando come un ufficiale di polizia militare. Non che abbia smesso di esserlo prima. Non riusciva a esprimere a parole il disagio che provava sempre.
L’incontro con la sua vera identità è avvenuto attraverso le consultazioni con un particolare psicologo. Tuttavia, non aveva detto al subito al mondo che era Henry per timore di pregiudizi all’interno dell’istituzione. “Credevo che le persone trans e travestite erano sempre state molto emarginate, quindi ho pensato che me ne sarei andata perché diverso. Ero prevenuto nei miei confronti e pensavo che fosse motivo di esclusione“, ha detto.

Ma durante uno stage di sviluppo professionale conobbe il decreto 55.588 / 2010, che garantisce il rispetto del nome sociale e dell’identità di genere delle persone transgender negli enti pubblici dello Stato di San Paolo. Come funzionario pubblico, fu da lì che si fece strada, con mezzi amministrativi, per essere riconosciuto nella sua vera identità di genere e, come dice lui, per essere felice professionalmente e personalmente.

L’intervista affronta il contesto del processo, il rapporto con altri agenti di polizia, le sfide all’interno della professione e la violenza della polizia. Nella ripercussione della chat su YouTube, che ha più di 15 mila visualizzazioni, Henrique è visto da molte persone come una possibilità di cambiamento all’interno di un’istituzione che si è storicamente scontrata con la popolazione trans – specialmente travestiti e prostitute. Riceve anche critiche per lo stesso motivo. Per il PM, essere all’interno dell’azienda non è altro che un legame di visibilità e rispetto per la popolazione trans.

Come mai volevi diventare un ufficiale di polizia militare?
Consapevole o incosciente, ho sempre voluto proteggere le persone. È iniziato con persone vicine a me, alla mia famiglia e in seguito ai miei amici. Ho sempre voluto evitare i conflitti. Quindi ho finito per optare per la sicurezza pubblica. In precedenza ero al college. Ho lasciato il college per diventare un ufficiale di polizia militare.

In quale college sei andato?
Ingegneria Informatica. Era una cosa diversa, molto diversa da quello che faccio oggi. Quindi, non lo so, ho detto: pagherò per questa attività qui (ride). Ho anche pagato un ufficiale di prigione perché ho un cugino e ho sempre ammirato il suo lavoro. In mezzo a ciò, ero un soldato della polizia militare. Era una gara accanto all’altra, mentre aspettavo il risultato delle fasi dell’una, stavo attraversando le fasi dell’altra. Sono passato in entrambi, assumendo l’incarico nella polizia militare.

Quando ti sei unito alla polizia militare, hai mai detto al mondo che sei Henry e che sei un uomo trans?
No. Mi sono iscritto nel 2015 e nel 2016 ho cercato lo psicologo con le domande riguardanti la mia identità di genere. Avevo imparato che c’era una definizione di come mi sentivo. Avevo già visto altri casi di uomini trans, sapevo che erano travestiti. Nel 2017, ho dovuto prepararmi molto, e pensare tanto al fatto di procedere o meno con la transizione. Ho pensato che le persone transgender e travestite sono sempre state molto emarginate, avevo pregiudizi contro me stesso e pensavo che fosse motivo di esclusione. Anche perché prima di parlare del transessualismo, questo era visto come una malattia. Ma l’ho visto in quel modo perché mi è stato mostrato così, quindi indipendentemente dal fatto che io sia nell’istituzione, se fossi in qualsiasi altro lavoro proverei la stessa paura.

Anche perché il 90% dei travestiti, secondo Antra (Associazione nazionale travestiti e transessuali), è inserito nella prostituzione. Molti di loro non perché vogliono – se lo volessero, sarebbero legittimi, in quanto è una professione che merita di essere regolarizzata – ma per tutti i pregiudizi. E come ha reagito la tua famiglia?
Ero libero di parlarne. Innanzitutto dovevo dire che mi piacevano le ragazze perché all’epoca non ero consapevole di essere una persona trans. La prima reazione della mia famiglia, mia madre e mia sorella, è stata di pregiudizio in questa prima fase. Quindi, quando sono andato dallo psicologo, sono stato in grado di portare la trans in casa. Chi mi ha davvero accolto è stato mio fratello minore e questo ha significato molto per me. Disse: “Bellezza, ti amerò lo stesso, non è cambiato nulla”. È stato il primo che ha cercato di trattarmi da maschio, che ha parlato di me a mia mamma nel modo giusto. Dopo ciò, mia madre si rese conto della sofferenza che ho avuto con il mio corpo, di come ho reagito, di quanto fossi triste. Sebbene fossi felice nella mia area professionale, nella mia area personale ero frustrato perché non potevo assumere la mia identità. Avevo paura di ciò che la gente avrebbe pensato e che sarei stato solo. Ma mi hanno dato tutti forza. C’è sempre chi ha detto: “Sei troppo bello, lo farai e ti rovinerà”. Quindi oggi dico: “Ero un gatto, oggi sono un gatto” (ride).

Come hai detto che sei un uomo trans, all’interno della polizia?
Prima ho fatto molte ricerche sul fatto che ci fosse un poliziotto militare trans da qualche parte in Brasile. Ne ho trovato solo uno da Pernambuco, ma non avevo altro e pensavo che potesse essere una notizia falsa. In una fase di sviluppo professionale, uno dei temi era l’aggiornamento legale e un comandante della compagnia ha parlato di un decreto. 55.588 / 2010, che tratta il trattamento di persone trans e travestiti all’interno di uffici pubblici nello stato di SP. Da questo ho pensato: “Se voglio essere riconosciuto, far rispettare il mio nome sociale, devo mostrare il mio interesse”. Poi ho avuto una fonte di protezione legale: nello stato di SP ogni persona trans ha il diritto di essere trattata con il mio nome sociale e la mia identità di genere all’interno degli uffici pubblici e sono un dipendente pubblico. Ho iniziato a mettere insieme le cose.

Cosa hai fatto?
Da quel momento in poi, ho avuto una migliore preparazione psicologica e il coraggio di rischiare tutto. Perché avevo ancora paura di perdere il lavoro, ma dovevo pensare: “Potrei perdere, ma voglio essere felice? O voglio condurre una vita infelice personalmente ed essere felice sul lavoro? Dal momento che non avevo alcun caso e un progetto su come procedere, ho chiesto allo psicologo PM, che mi ha indicato di fare un documento che mi chiedeva una guida su come procedere per far rispettare il mio nome sociale e iniziare la terapia ormonale. Ho realizzato questo documento, che è andato al comandante della compagnia – quello che aveva parlato del decreto – e mi stava guidando su cosa avrei dovuto fare. È da lì che ho iniziato. Ho sempre avuto molto da fare per il diritto, volevo essere supportato. Non volevo farlo comunque.

Nell’unità in cui lavoro non ho sofferto di transfobia. Almeno non direttamente, non ho notato. Ma il pregiudizio è quello che ho detto: avevo un pregiudizio perché non lo sapevo. Quello che posso dire di ciò che ho visto e testimoniato è che dopo che l’ho assunto all’interno dell’istituzione, i miei colleghi di servizio non sono venuti a criticarmi. Sono venuti per chiedermi come ci si sentiva, com’era, perché non avevano contatti. Ero un collegamento per trasportare le informazioni all’interno dell’istituzione. Dato che ero al mio servizio, prima e dopo non avvertivano differenze, perché continuavo con la stessa abilità, svolgendo gli stessi compiti e professionalmente. Quindi non ha interferito con il mio servizio, questa è la mia vita personale. Ciò che è cambiato è stato: ho smesso di sembrare una donna, ora sono visto e riconosciuto come ho sempre sentito.

Uniforme, nome sociale, tutto questo è stato garantito all’interno del PM?
Al momento ho rettificato i miei documenti. È importante dire che ogni uomo che li corregge deve recarsi al servizio militare obbligatorio per richiedere il discarico militare. Perché per andare al college, trovare un lavoro, avrete tutti bisogno del licenziamento. Ed è qualcosa di molto semplice e ne avrai bisogno. Con la mia rettifica del documento, ho aggiornato tutto. Ma prima avevo richiesto l’uso del nome sociale e l’istituzione lo aveva autorizzato. Mi hanno dato il diritto di indossare l’uniforme maschile, di indossare gli accessori maschili e il taglio di capelli. È divertente perché avevo i capelli molto lunghi e la prima cosa che ho fatto quando sono stato autorizzato è stato andare lì e radermi. Ho sempre avuto questo bisogno. Attualmente uso un alloggio separato, né maschio né femmina. La polizia si preoccupa così tanto che non voleva mettermi in imbarazzo, dicendo che non appena avessi avuto l’intervento chirurgico pettorale e mi sentissi a mio agio avrei avuto il diritto alla casa maschile. Al momento non frequento perché il mio intervento è routine ma tuttavia mi vergogno di togliermi la maglietta.

Nel corso della storia, la popolazione trans ha avuto scontri con la polizia militare. Ricevi critiche da parte di persone trans per essere un poliziotto militare e un uomo trans?
Di recente ho realizzato un video nel Trans Visibility Month e sono stato offeso da un militante travestito per essere un ufficiale di polizia militare. Ha detto che non potevo essere una polizia trans e militare, che non ero un militante rappresentabile, che non avrei potuto voler alzare la bandiera. Penso che se hai intenzione di fare una critica, fai una critica, ma non un’offesa. Il posto principale che dovremmo rispettare è il nostro posto di appartenenza e quando vieni offeso in quell’ambiente fa molto più male. Perché le persone là fuori non lo sanno, ma lo fanno.
In precedenza la società aveva una visione della polizia, che era brutale e aggressiva. Ma oggi, nell’istituzione per cui lavoro, lavoriamo con una politica di polizia comunitaria. Il nostro contatto con la popolazione è totalmente diverso da quello che era. Esiste persino un nostro programma chiamato quartiere di solidarietà, che si svolge nei quartieri. Diversi residenti hanno istituito un gruppo WhatsApp e hanno sempre un poliziotto militare lì. Quando si verifica un illecito nel quartiere, giocherai nel gruppo e la polizia militare ci lavorerà, facendo pattuglie ostentate e preventive. Quindi la vicinanza della popolazione è molto più con la polizia.

Ma vale la pena ricordare che parli della tua esperienza all’interno della polizia militare di Ituverava, San Paolo, giusto?
Lavoro a Ituverava, per strada. Assistiamo agli eventi che vengono inviati dai 190 e anche quando incontriamo eventi sulla strada. Ad esempio, potresti passare per strada, vedere qualcosa di irregolare, chiamare la macchina e stabilire un contatto con noi per passare qualsiasi cosa.

Qual è il parallelo che puoi trarre da questo passato e dai casi in cui la polizia è ancora violenta contro la popolazione trans e il fatto che abbiamo un transessuale in questo spazio per la prima volta?
La polizia militare è composta da persone della società. Quindi se prendiamo questa radice di pregiudizio che le persone hanno, non solo nell’istituzione in cui mi trovo, ma fuori, cambierà. È come ho detto: il pregiudizio viene da ciò che non sappiamo. Quindi la mancanza di informazioni finisce spesso per causare un trattamento con un altro in modo irrispettoso. La visibilità che porto all’interno dell’istituzione è importante, perché le persone devono avere un contatto, sapere come trattare una persona trans, come trattare una persona travestito. Se non ci inseriamo, non cerchiamo di contribuire in alcun modo a portare conoscenza, questa visione che la popolazione ha delle persone trans continuerà ad essere emarginata. Questa è la differenza: il cambiamento è già iniziato. Sono qui, sono un soldato della polizia militare. Quando avrei mai immaginato di essere un PM, un dipendente pubblico e di essere trans?

Devo dire che la polizia militare è ancora vista come violenta, specialmente contro la popolazione trans-nera da parte dei movimenti sociali …Esistono raccomandazioni sul pregiudizio? Cosa è vero e falso?
L’istituzione stessa non ha alcun tipo di pregiudizio, al punto che è vincolata dalla legalità. Ho protetto tutti i miei diritti. L’unico posto in cui avrei tutti i miei diritti rispettati è all’interno della polizia militare. Se mi offendi, sarai punito per questo. Posso dirlo perché ci sono io. Penso che la gente abbia dovuto rimodellare il proprio punto di vista, perché la polizia non è nemica. Tanto che qualsiasi situazione che non sai come risolvere, attrito, la prima cosa a cui penserai è chiamare 190. Nella città in cui lavoro non c’è un pompiere, quindi quando una casa è in fiamme la gente chiama la polizia. Vado a lavorare per 12 ore di servizio stradale, per prendermi cura di persone che non conosco, senza alcuna distinzione. Sono lì per cercare di aiutare in qualche modo.

Per un uomo che sta seguendo questa intervista e che vuole diventare un ufficiale di polizia militare, qual è il consiglio che gli dai?
Non c’è un suggerimento. Se per caso hai pensato di essere un poliziotto militare e hai pensato che fosse impossibile, io sono un esempio che non lo sei. Non rinunciare ai tuoi sogni.

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