Por Neto Lucon
Fotos: Lucas Ávila

Sou travesti, idosa e mereço respeito”. Foi carregando uma plaquinha com essa mensagem em uma foto publicada nas redes sociais que Anyky Lima conseguiu dar visibilidade para uma realidade pouco vista, conhecida e valorizada no Brasil: a das travestis que chegaram na terceira idade.

Aos 61 anos, a carioca radicada em BH é exemplo de resistência e superação num país cuja expectativa de vida de uma travesti é de 35 anos. Anyky driblou o desamparo familiar desde os 12, a sociedade transfóbica, a violência da ditadura, ao boom da aids, aos desafios da prostituição, os preconceitos institucionais e outras adversidades. Sobreviveu, viveu e continua na ativa.

Após quase 50 anos na profissão do sexo, ela atua como costureira, aluga quartos em uma pensão para travestis e mulheres transexuais morarem e tem um importante papel na militância. Anyky ocupa espaços, participa de manifestações e figura em diversas campanhas, como a “Que diferença faz ser travesti? O seu respeito faz toda a diferença”, do Ministério Público de Minas Gerais.

Acolhedora, bem-humorada e sincera, ela recebeu o NLUCONem sua casa e revelou detalhes de sua trajetória emocionante e refletiu sobre a existência travesti no Brasil. Contou também que pretende viver por muitos anos e que irá fundar uma nova ong para a população de travestis e mulheres transexuais, com objetivo de empoderar novas meninas para a luta.

Toda vez que falo sobre travestis na terceira idade muita gente fica surpresa. Por que você acha que isso acontece?
Como as pessoas veem as meninas morrendo muito cedo, elas pensam que a gente não envelhece. E muitas das que envelhecem acabam se recolhendo ou se escondendo por questões de doença, por não poder fazer mais programa ou até mesmo por vergonha. A gente vive muito da beleza e as novinhas são ruins com as mais velhas. Chamam de “maricona”, aquelas coisas. Ou seja, a gente sofre a vida inteira, chega na velhice e ainda vê uma debochar da outra. Daí ela se sente mal e se afasta. 

O que você percebe quando as pessoas sabem que você é uma travesti na terceira idade?
Elas já ficam assustadas comigo porque acham que eu sou mulher lésbica [cis]. Ninguém me define como travesti. Em muitos eventos que eu vou muita gente pensa que eu sou mãe de alguma travesti que foi assassinada. Mas quando veem que sou a própria travesti, elas ficam abismadas, interessadas. Os homens, então, falam coisas que dão até nojo (risos). Mas já escutei: “Cara, essa velhinha é homem?”. Ainda hoje as pessoas confundem a travesti com homem, como se não tivéssemos uma identidade feminina. Eu ainda me defino como travesti, porque na minha época não existia essa palavra transexual.

Há uma resistência a novos termos?
Não, é porque travesti para mim é um termo de luta. Tudo o que aparece de ruim era e é com a travesti. É a travesti que morria, é a travesti que era espancada, era a travesti que apareceu primeiro dando a cara a tapa e eu nunca vou deixar de usar esse nome. Para mim, transexual é um nome que chegou muito recentemente e que às vezes penso que é um tipo de higienização. Outras pessoas se denominam “trans” para serem aceitas pela família, para serem aceitas pela sociedade. Mas eu, que já gosto de cutucar as pessoas e a sociedade, falo que sou travesti. Para elas entenderem que a travesti pode estar em todos os patamares. 

Eu vi que você estava em uma foto com uma plaquinha: sou travesti e quero dignidade e respeito. Na terceira idade, essa luta por dignidade e respeito é diferente?
Não existe respeito quando descobrem que você é travesti. Eu senti isso um dia que eu fui ver uma casa para comprar e o advogado começou a conversar comigo, me chamou de “dona pra cá, dona pra lá”. De repente ele pediu para eu preencher um papel e eu falei “Meu nome é esse, mas eu gosto de ser chamada de Anyky”. Daí ele não me tratou mais como senhora, ele começou a me tratar como se eu fosse um objeto qualquer, uma cadeira, e às vezes me chamava de “ele”. Horrível… Na época eu ainda não havia feito a mudança do nome nos documentos. Aliás, eu nunca pensei que conseguiria retificar o nome e o gênero. Demorou oito meses e veio do Rio de Janeiro. Fiquei tão nervosa que comecei a chorar. Achei o máximo. 

Existem políticas públicas para a travesti da terceira idade?
Saúde é a maior política pública que a população trans em geral, e principalmente a idosa precisa. Mas esta pauta não contempla as travestis em geral, muito menos a travesti idosa. A gente nem escuta falar da travesti idosa. Mas, às vezes, eu mesma sou culpada porque não falo da travesti na terceira idade e eu já sou uma travesti na terceira idade. Hoje, a gente precisa focar nessa população, porque se você for no Eduardo Menezes Hospital você vai encontrar a travesti mais velha jogada. Aí acaba sem identificação, porque às vezes ela precisa da família e é obrigada a tirar aquela característica de mulher e a se vestir de homem. E tudo isso acaba abalando ainda mais a pessoa. 

Foi tranquilo para você lidar com o passar dos anos?
Sou uma pessoa muito realista, adoro a minha idade, tanto que eu não vou pintar mais o meu cabelo. Eu quero chegar em mais de 100 anos. Para mim é uma glória chegar aos 61 anos, ter passado pela ditadura, ter passado pela aids, ter passado por toda essa violência e ter conseguido sobreviver. Só é triste porque vi muitas amigas morrerem. Mas acho que ter chegado até essa idade é uma vitória para a nossa população. Eu consegui sobreviver, não me descaracterizei, continuei sendo a mulher que sempre fui. Hoje eu me sinto mais feminina do que era antigamente, então para mim é maravilhoso ser uma coroa. Na militância, sou reconhecida e me sinto bem. Talvez não devesse sentir, porque não sou diferente das outras meninas e se achar traz um afastamento. Hoje, eu posso chegar na frente de um delegado e discutir com ele, sendo que antigamente eu não tinha essa oportunidade. Cada dia que passa, eu aprendo mais e dou valor ao que eu faço. Porque eu confio nessa comunidade. Só as dores é que são “uó”. 

Você tem algum problema de saúde?
Todos! (risos). Pressão alta, silicone, deito pra cá dói, pra lá, dói. Então é horrível. E não tenho me cuidado, porque não é um habito a pessoa trans cuidar na saúde. Tem aquela mania de “Ah, tô com uma dor de cabeça, vou tomar um comprimido”. Agora eu tenho um médico marcado e eu não vou deixar de ir, porque estou sentindo muitas dores no silicone, o meu pé está inchando muito. Eu sofri uma cirurgia lá em Diamantina. O meu testículo ficou desse tamanho (faz do tamanho de uma bola de futebol), eu tive que tirar um. Aí passou para o outro e eu tive que tirar o outro. E eu perdi todo o hormônio que eu tive no corpo. E eu não posso tomar hormônio porque tomo remédio para pressão, então eu tenho que ir ao médico para saber o que está acontecendo. O meu peito também tem manchas pretas por causa do silicone, eu ia fazer a cirurgia, mas o médico me humilhou e eu deixei de fazer. Estava tudo pronto para fazer, mas eu deixei.

Você acha que mudou a maneira de como as pessoas olhavam as travestis antes para como olham agora?
Acho que hoje existem muitas pessoas que não são LGBT e que estão na luta para que essa identidade seja reconhecida. Mas não acho que mudou. Eu vejo a mesma coisa que acontecia comigo: as pedradas. As meninas ainda levam pedradas, ainda são assassinadas sem ninguém fazer nada. Uma vez uma menina levou uma facada aqui na Pedro II, eu fui lá e quando a polícia chegou: “Ah, é um (sic) travesti”, como se não fosse nada. Então eu acho que não mudou. As pessoas usam essa população para o bem-estar deles, para o prazer deles, mas trata-se como um robô ou boneco, que você pode usar ou destruir a hora que quer. 

Ainda olham a travesti e pensam: é marginal, é drogado e é ladrão. E não é. Esquecem que quando você está na rua você está próximo a tudo. Mas tem muitas meninas que vão para a rua só para ganhar o dinheiro delas. Não fuma cigarro, maconha, não cheira, não bebe… Tem outras que fazem, mas isso é com qualquer ser humano. O problema é que as pessoas não veem as travestis como ser humano. E nem como bicho, porque as pessoas gostam de bicho e não gostam da travesti. 

A violência contra trans é totalmente diferente daquela contra gay e lésbica, porque o gay e a lésbica tem ao menos a definição: “é um homem que gosta de outro homem”, É a mulher que gosta de uma mulher”. E o que é a travesti? Nada. Ela não é nada, não se encaixa em nenhum dos quadrados da sociedade. E é muito triste ser vista como nada.

O que acha dessa nova geração?
Eu acho que também não mudou. É igualzinha à minha geração. A gente quer viver, viver, viver. E acha que não vai viver muito, então quer viver o momento. Tudo na travesti tem que ser na hora, sabe? Se ela quer um peito, ela quer na hora. Se ela quer um cabelo, ela quer na hora. A travesti não vive o amanhã, ela só vive o momento, hoje. Mas isso na minha época também era assim. Se a gente queria tomar hormônio, a gente tomava uma cartela inteira de hormônio. Eu mesma chegava a tomar duas injeções de hormônio. Tudo bem que eu desmaiava, mas estava com um corpo e umas pernas belíssimas (risos). Era a dor da beleza.

Qual é o conselho que você daria para elas?
É que elas se esforçassem e conseguissem estudar um pouco. Nem que ela enfrentasse, nem que ela batesse, apanhasse, porque o estudo faz muita falta. Nem precisa ser muito estudo, mas pelo menos um pouco. Porque eu vejo muitas pessoas serem aproveitadas porque não tem estudo. Eu acho que a prostituição ela tinha que ser um lazer: “Eu trabalho, tenho minha carteira assinada, mas vou lá na rua porque eu gosto e para ganhar um dinheiro extra”. Eu não queria que a putaria fosse uma obrigação. Mas enquanto os pais jogarem as meninas para fora de casa, isso vai acontecer. 

Então você não encara a prostituição como profissão?
Tem gente que encara como profissão, mas as pessoas não encaram como profissão. As pessoas falam que a gente está ali porque somos um poço de sexo, que fazemos sexo uma com a outra, com a parede, com o cabo de vassoura. Então a gente fica numa situação estranha. Eu sempre gostei muito da putaria, porque lá eu fui amada, desejada, espancada, espanquei. Tinha coisas tristes e coisas boas. Mas acho que a prostituição deveria ser uma coisa que você está porque quer, não como uma obrigação de ir. Porque tem gente que gosta, mas tem gente que não gosta de se prostituir. Eu me prostituí até os 50 anos, quando descia para a rua com um consolo, porque já havia feito a cirurgia nos testículos. 

Você foi expulsa de casa aos 12 anos. Como ocorreu?
Eu fui muito rebelde, não fui uma criança boazinha. Não falava nem que era travesti, eu falava que era mulher. Tinha sonho de me casar de véu e grinalda, não me conformava que as pessoas dissessem que eu era igual ao meu irmão. Eu dizia que queria ser como a minha irmã. E eu tive um conflito muito grande com a minha família. Eu discutia mesmo, eu gritava dentro de casa, que eu era mulher, que ia me casar. E isso era um choque muito grande para a minha mãe, porque ela era Pernambucana o meu pai também era Pernambucano. Eles eram primos legítimos, casados, cortavam cana e tinham toda aquela tradição por trás. Se hoje é difícil para uma família aceitar, imagina na minha época. Então ficou uma coisa insuportável na minha casa, porque eu não aceitava mesmo. Eu roubava as maquiagens da minha irmã, eu roubava as calcinhas da minha irmã, a minha mãe não deixava eu dormir na cama.

O que representa família para você?
Quando eu fui expulsa de casa eu fiquei com muito ódio da minha família, mas depois eu vi que não podia ter ódio. Não foi só a minha mãe que me botou para fora de casa, foi a sociedade inteira, que me apontava, que ia lá para a minha mãe falar que eu era isso ou aquilo. Hoje eu digo que a minha família eu construí da mesma maneira que construí o meu corpo. A minha família são as meninas que moram comigo, porque se eu cair durinha aqui quem vai me socorrer são elas. Então, eu sei que tenho irmãs de sangue e tudo, mas é como se eu não tivesse. Eu considero e tudo, mas não tenho vontade de ir ao Rio de Janeiro. Eu vou, fico dois dias e já quero vir embora. E às vezes eu vejo que as pessoas gostam de mim por outro interesse. Por um interesse material. 

Para onde você foi depois de ser expulsa?
Eu fui para o Flamengo, eu fiquei na beira da praia e lá tinha um mendigo. Ele ficou com medo de mim e eu fiquei com medo dele. Depois eu comecei a ver aonde as meninas iam e eu comecei a ir também. Só que eu apanhava, porque não tinha cabelo, o cabelo estava começando a crescer, não tinha corpo, não tinha nada e elas não me aceitavam. Comecei a ver que as meninas também saíam de carro e eu ficava curiosa. Quando vi que a rua estava vazia, eu entrei no primeiro carro que perguntou o preço. Depois que eu descobri que alguma coisa no meu corpo dava dinheiro, ah, meu filho, ninguém me segurou mais. Logo depois eu fui para zona, para Vitória, de carona… 

Como você sobreviveu sendo tão criança? Você era uma criança, tinha 12 anos!
Nunca parei para pensar nisso, mas ninguém teve peninha de mim, ninguém me acolheu ou disse que me levaria para casa, nada disso. Para as pessoas, viado não é mais criança. Desde quando percebem que é viado, você não é mais criança. Desde o momento que você faz a transição você deixa de ser criança. Então você não é nada. É isso, você não é nada. Não sei como sobrevivi, mas não fiquei muito tempo no Rio. Quando fui para Vitória, via outras pessoas iguais a mim e eu era mais livre. A polícia da época não queria saber se era menor, ela queria é fazer covardia, bater, prender e soltar depois. Lembro de uma vez que levei muita palmatória na mão, apanhei muito. Ficava presa dois ou três dias e depois eles soltavam. Corri muito risco, porque na época também não tinha preservativo e eu tive muita sorte de não pegar nada. 

Hoje em dia vocês são exemplos para a geração mais nova. Mas em que vocês se espelhavam quando eram mais novas?
Lembro da Roberta Close, na beleza dela e das meninas que saíam na revista Manchete. Eu ficava louca no carnaval quando saíam os especiais com aquelas travestis lindíssimas. Tinha aquela dos Leopardos [Elloína]. Eu me inspirava naquela beleza, mas não tinha ninguém que inspirasse para a gente correr atrás. Naquela época a gente tinha que correr atrás sozinha mesmo. Não tive tempo de ficar indo atrás de artista, essas coisas, a gente fazia 20, 30 clientes em uma noite.

Tem alguns casos marcantes dentro da prostituição? 
Esse corte que eu tenho no rosto foi de um cara que começou a pegar no meu pé na zona. E achou que era meu dono. E um dia ele foi com o chucho para enfiar na minha cara, ele me cortou e eu cortei ele.

Mais algum?
Teve um caso muito interessante que ocorreu num ano que eu fiquei muito doente. A gente morava em um beco com vários quartos e pagava para morar ali. Elas chegavam e falavam que “que pena que eu estava doente” e iam comer no restaurante da Gatinha, que era o melhor e que fazia uma torta de bacalhau que eu adorava. Gostavam de tombar uma com a outra, sabe? Daí fui andando atrás delas e um homem bêbado veio e me agarrou. Dei um empurrão nele e ele caiu na lama.
Mas quando ele caiu, meu bem, a carteira dele também caiu e estava cheia. Peguei a carteira dele e acho que tinha o 13º , o 15º e 23º. Peguei o dinheiro e fiquei tão desesperada que ao invés de ir para o restaurante, fiquei escondida ardendo em febre no meio do mato. Devia estar meia doida, né? (risos). 

Quando vocês ficavam doente, ninguém ajudava?
Uma bicha ajudava a outra, sim. Na minha época o companheirismo era muito melhor que hoje. Porque quando a gente entrava no carro a outra bicha anotava a placa do carro, prestava atenção. A gente poderia ser inimiga, mas na hora que estava batalhando, se um cara desse um tapa na cara da outra, juntava todas contra ele. Hoje, eu vejo as meninas uma fazendo ferro da outra.

Com quantos anos você começou a transição?
Comecei a tomar hormônio logo depois de sair de casa. Perguntei para elas como elas tinham botado peito e ia na farmácia comprar o hormônio. Mas antes mesmo eu era um menino muito engraçado, porque eu tinha as pernas muito grossas, eu tinha a pele muito branca, que os homens queriam.

Você chegou a usar o silicone industrial e foi bombadeira. O que acha sobre ele hoje em dia?
Acho um crime. Eu até fiz uma promessa para Iansã que nunca mais na minha vida eu pegava num frasco de silicone. A minha opinião sobre o silicone industrial mudou porque a última pessoa que eu bombei ela passou mal. Ela comeu demais, porque quando a pessoa bomba não pode comer muito, daí jogaram ela debaixo de um chuveiro. Ela não morreu, não, hoje em dia está até na Europa. Mas aquilo me deu um choque muito grande. Eu fiquei muito apreensiva e pensei: “essa bicha podia ter morrido e ia ficar nas minhas costas”. Não, nunca mais quero saber disso e nunca mais fiz. 

Eu sou contra porque acho que isso é uma coisa de louco. Você mexe com a vida do outro ser humano. A pessoa pode até ficar belíssima como pode morrer no momento, porque o silicone mata na hora. E outra coisa: o silicone te deixa belíssima durante 10 ou 15 anos depois começa a “mondrongar” tudo. Depois a pessoa começa a ficar com problema, sempre fica. Para mim, os médicos devem se inteirar melhor sobre isso, sobre nossas necessidades e saber que a gente tem tanta necessidade dessas transformações que, mesmo sabendo do risco, vai usar.

Teve grande amores?
Tive vários. Quando a gente estava na zona, primeiro iam os coronéis, fechavam a zona toda, às vezes saia com uma e pagava todas. Chegou uma época em que o povo começou a falar que ia construir o tal do Tubarão, que é um porto de navio. Mais de 3 mil homens chegaram e todo mundo ficou com medo de ser morta. Mas  que nada. Cada uma casou com uns dois ou três. Eu já casei logo com quatro (risos).

Como assim casar?
Casar era arrumar namorado, eles davam dinheiro para a gente, um se escondia do outro, um saía pela porta e outro entrava por outra… Aquele era um lugar de muita violência, mas que também trazia muita coisa boa. Eu conheci um cara do Paraná que era muito lindo e que eu fiquei um tempão até ele ir embora. Depois eu tive esse cara que ele me cortou e que eu cortei ele também. Tive um cara que eu era apaixonada por ele na zona, mas a cabeça dele era como a dos homens de hoje: ele só queria comer… 

Teve algum homem que te chamou para sair da prostituição e ter uma vida a dois?
Esse que me deu essas máquinas de costura, que me cortou e que eu também cortei. Eu conheci em Vitória. Daí ele foi para o Rio de Janeiro, montou um apartamento, eu fui morar com ele. Só que ele ficava a semana inteira em São Paulo e eu ficava lá. Só que tinha as minhas necessidades. Ele até deixava um dinheiro comigo, mas o dinheiro não dava para tudo. Eu tinha que voltar para a rua, batalhar. E eu também pegava costura para fazer, na Copa, escola de samba… 

O que você poderia falar sobre o período da Ditadura?
A polícia prendia a gente na rua, né? Quando morava uma turma de travestis, eles aprontavam mais, porque não iam apenas para prender. Iam para barbarizar, para matar, para deixar aleijada, porque eles tinham esse prazer. Agora na rua quando falavam “Os alibam!!!” saíam todas. Uma vez eu corri e me escondi embaixo de um caminhão. Um desgraçado de um pivete que estava vendendo doce falou: “moço, tem um aqui debaixo”. Até hoje eu praguejo esse menino (risos). E o prazer deles era esse: levar a gente para delegacia e lavar banheiro, ficar desfilando para lá e para cá para eles baterem. Mas a travesti negra sofreu mil vezes mais. Se tinha uma travesti negra no grupo, ela sofria mais que qualquer outra. Ela era humilhada pela cor, por tudo. 

Existiu alguma revolta diante dessa violência toda?
Não, a gente sempre foi muito conformada com isso. Até hoje as travestis e transexuais são conformadas com essa violência. Tanto que você fala para uma travesti que apanhou: “vai na delegacia e faz uma queixa”. Ela vai dizer: “não vou lá, não, não vai adiantar nada. Amanhã eu vou estar ali na rua e eles vão me matar”. Então se torna algo banal. A gente começa a sentir que a gente merece aquele castigo. A gente começa a sentir que a gente é errada. As pessoas fazem uma lavagem cerebral que a gente começa até a admitir que está errada, pois apesar de você querer aquilo e saber que é algo seu, todo mundo diz que é errado, que é pecado. É horrível ser apontada a vida inteira.

E a história de se cortar com a navalha?
A gente era taxada com tudo o que é doença, né? Então os policiais tinham medo de quando a gente se cortava. Daí eles prendiam, a gente se cortava e eles liberavam com medo de pegar alguma coisa. 

Você chegou a ser presa muitas vezes?
Muitas. Teve uma época que a gente era presa toda semana em Vitória. Eles iam na porta da zona e botava uma na mão da outra e levava. Teve uma vez que a polícia daquele capacete branco invadiu a zona e, nossa, agrediram muito. Tinha muita menina caída na rua. Muita violência. Teve uma vez que eu não andava de tanta palmatória que recebia na mão e no pé. Mas eu te falo que às vezes você ser branca e ter uma boa aparência te safa de muita coisa. Até mesmo na violência existe isso. Volto a dizer, quando a travesti era negra ela sofria muito mais. Eu jamais apanhei da maneira que eu vi uma negra apanhar. Foi uma coisa muito degradante.

Você já perdeu várias pessoas próximas por meio da violência. Gostaria de destacar a memória de alguma delas?
Eu perdi uma menina que morava na minha casa, de quem eu gostava muito. Ela saiu da minha casa porque arrumou um namorado, ia se casar, estava muito feliz. E na semana que ela veio me convidar para um churrasco na casa dela, ela apareceu morta. Veio falar comigo na sexta-feira e no domingo ela apareceu morta. Tiffany. Barbarizavam demais, afundaram o crânio, quebraram todos os dentes e deram muitas facadas. Ela tinha comprado um vestido na mão de uma mulher que estava em casa, era um vestido branco e ficou todo vermelho. Jogaram ela debaixo de um caminhão em Betim. Ela era uma pessoa maravilhosa dentro de casa, ela ajudava a mãe dela, toda semana ela mandava dinheiro para a mãe dela.

Na rua ela bebia um pouco e era atrevida. Se você chegasse e falasse alguma coisa para ela, ela dizia: “Eu só tenho que dar satisfação à tia Anyky e a minha mãe em casa”. E eu sei que isso incomodava. Eu acho que essa morte foi para me agredir, porque foi quando eu comecei a abrir os olhos das meninas. Porque a bicha burra dá muito mais lucro. E eu falei que elas poderiam ter conta no banco, ter direitos, mas acontece que as pessoas que matam as travestis não vão presas. E, se vão, acabam saindo pela porta da frente. Ao mesmo tempo, a travesti é presa porque foi pega com uma trouxinha de maconha.

Você não sai mais na rua durante a noite. Por quê?
Eu já tive muita ameaça de morte. O primeiro medo que eu tive foi quando a polícia invadiu a minha casa em 2009. A minha casa tinha mais de 15 meninas na época. A polícia entrou na casa, botou a arma na minha cabeça, me humilhou de todas as maneiras… Humilhou as meninas, chutou os cachorros. E ficaram um mês invadindo a minha casa. Eles falavam que estava procurando droga e arma, mas na verdade é que eles queriam que eu fosse embora de BH, que desistisse de morar aqui. 

Teve um dia que eles invadiram a noite em casa e eu liguei para o Roberto Chateaubriand, que é advogado de direitos humanos. Ele foi lá e o policial disse que recebeu uma denúncia que tinha arma e droga. O Roberto disse que era mais de 23h e que eu poderia autorizar ou não a entrada dos policiais. Eu falei que não tinha nada a temer, mas que todos os lugares que eles forem eu vou junto. O policial militar estava com um papel na mão e o Roberto perguntou o que era, e ele disse que era o papel da polícia federal e que era para eu assinar. O Roberto questionou: “Como? Você é polícia militar e está com o papel da polícia federal para ela assinar, isso não existe?”. O policial ficou uma fera, disse que não iria entrar mais e que voltaria com um mandado para botar o pé na porta. Daí eu botei câmera na casa toda e nunca mais foram.

É verdade que você já teve problema com os vizinhos, que não aceitavam morar ao lado de travestis?
Já vi homem deitado debaixo do portão olhando lá para dentro. Eles devem achar que a gente anda pelada, que uma come a outra, que a mãe da outra já chega e você come a mãe da outra… É como se fosse uma panela de macarrão, uma comendo a outra. O povo tem que pensar que a gente tem que lavar a roupa, que a gente cuida de cachorro, que cuida de casa, que a gente come comida. Que o sexo é uma necessidade de ganhar dinheiro. E quem fez que a travesti fosse ativa é o hétero, porque quando ela se transforma é para ser mulher. Ela não quer deitar com o homem para comer ele, não. Foi ele que fez ela fazer isso. Eu mesma sempre sonhei em me casar de véu e grinalda. A primeira vez que o homem colocou a boca na minha mala eu quase desmaiei dentro da zona (risos). Mas daí o homem oferece mil reais para ela comer ele, e ela não vai comer, sabendo que tem que pagar as contas no dia seguinte? 

Porque você acha que as pessoas ainda hoje são transfóbicas?
É muito mais fácil destruir que acolher. O preconceito é algo horroroso, uma doença gravíssima, mas todo mundo tem. Se você vê uma travesti caída na rua ou uma pessoa em situação de rua, você tem nojo. Você não quer botar a mão e quer passar o mais longe possível. Não é verdade? Mas daí você imagina que aquela pessoa caída na rua é a sua mãe. Você vai abraçar aquela pessoa do jeito que ela está ali. Não é? Você vai acolher, vai abraçar sem nojo algum e com todo o amor. Mas se for outra pessoa você vai ignorar, vai desprezar e se ninguém tiver vendo pode até fazer algo de mal para a pessoa. Eu acho que se as pessoas fossem mais solidárias e com esse olhar afetuoso tudo seria mais fácil para todo mundo.

Você consegue identificar quem reforça essa transfobia?
O que eu vejo é as pessoas pensando: “Por que vou me juntar a você, se você é uma pessoa tão suja?”. Até toleram que nos usem a qualquer hora, mas ninguém pode ser visto com nós. E um dos motivos é porque a igreja nos abomina. Eu vejo todos os dias a igreja, agora até mesmo na TV, incitando a violência contra essa população. Mas que Deus é esse? O meu Deus é um Deus de amor. O Deus que eu conheço se revoltou, não foi com vagabundo, não foi com negro, com travesti, ele se revoltou com as pessoas que estavam usando ele para comércio, explorando a fé do outro. Mas a sociedade fecha os olhos porque eles têm muito dinheiro. Por que eles vão deixar de dar valor para alguém que tem muito dinheiro para dar valor a uma travesti que não tem eira e nem beira, sendo que a própria família colocou para fora?

Acho que a educação deve começar dentro de casa, porque a primeira violação vem dentro de casa. Mas eu acho que o grande culpado, além da religião e da falta de educação da família, é quem está no poder. Você vê que em época de eleição todo mundo beija criança catarrada, bate nas costas de todo mundo, beija negro, abraça travesti, mas depois corre léguas de você. É porque quando você se torna trans você perde todo o vínculo, porque se torna suja, porque engloba você ao sexo. E é uma hipocrisia porque todo mundo trepa, todo mundo goza. Mas só a gente é que dá. Como se o vizinho não desse. Como se a vizinha não desse. Como o filho dela não desse ou não comesse.

Bem, já que você espera chegar nos 100 anos, o que você vai fazer nos próximos 40, 50… anos?
Vou continuar na luta, não vou desistir. Vou criar uma ong, a Trans Viver, mas não para eu ter uma ong por ego. Quero empoderar outras meninas. Militância é uó, é chato, você não ganha nada, só gasta, vai falar as mesmas coisas para as mesmas pessoas, vai participar de 20 reuniões que não vai sair do papel. Então tem que ter muita persistência e muito amor pela luta que você quer. Se eu tiver 20 meninas e eu conseguir que duas queiram botar a cara e brigar pelos direitos, eu consegui. Isso já seria uma glória.

Intervista con l’attivista travestiti Anyky Lima
A 61 anni, che parla di dittatura, transfobia e vecchiaia

“Sono una travestita, vecchia e merito rispetto.” È portando un cartello con questo messaggio su una foto pubblicata sui social network che Anyky Lima è stata in grado di dare visibilità a una realtà poco conosciuta e apprezzata in Brasile: quella dei travestiti arrivati ​​in età avanzata.

A 61 anni, la carioca che vive a Belo Horizonte è un esempio di resistenza in un paese la cui aspettativa di vita di un travestito è di 35 anni. Anyky ha eluso l’impotenza familiare da quando aveva 12 anni, la società transfobica, la violenza della dittatura, il boom dell’AIDS, le sfide della prostituzione, i pregiudizi istituzionali e altre avversità. Sopravvissuta, vive e rimane attiva.

Dopo quasi 50 anni nella professione sessuale, fa la sarta, affitta camere in una pensione in cui vivono travestiti e donne transgender e svolge un ruolo importante nell’attivismo. Anyky occupa spazi, partecipa a dimostrazioni e figura in varie campagne, come “Che differenza fa il travestito? Il tuo rispetto fa la differenza”, del Pubblico Ministero della Minas Gerais.

Accogliente, divertente e sincera, ha accolto NLUCON nella sua casa e ha rivelato i dettagli della sua entusiasmante carriera e ha riflettuto sull’esistenza della parodia in Brasile. Ha anche detto che intende vivere per molti anni e che troverà una nuova ONG per la popolazione di travestiti e donne transgender per dare potere alle nuove ragazze di combattere.

Ogni volta che parlo di travestiti in età avanzata molte persone sono sorprese. Perché pensi che questo accada?
Poiché le persone vedono le ragazze morire presto, pensano che non invecchiamo. E molti di quelli che invecchiano finiscono per ritirarsi o nascondersi a causa di una malattia, non sono in grado di fare programmi o addirittura si vergognano. Viviamo di molta bellezza e i giovani sono cattivi con gli anziani. Ci chiamano “maricona” quelle cose. Cioè, soffriamo per tutta la vita, arriviamo in età avanzata e ce ne andiamo.

Come reagiscono le persone quando sanno che sei una travestita in età avanzata?
Hanno già paura di me perché pensano che io sia una donna lesbica [cis]. Nessuno mi definisce una trav. In molti eventi le persone pensano che sono la madre di una trav che è stata assassinata. Ma quando vedono che sono io stessa la travestita, sono stupiti, interessati. Gli uomini poi dicono cose che li rendono disgustosi (ride). Ma ho sentito: “Amico, quella vecchia signora è un uomo?” Ancora oggi le persone confondono la trav con gli uomini, come se non avessimo un’identità femminile. Mi definisco ancora una travestita, perché ai miei tempi non esisteva una parola come transessuale.

C’è una resistenza a nuovi termini?
No, il travestimento per me è un termine di combattimento. Tutto ciò che viene fuori dal male era ed è con il travestito. È la travestita che è morta, che è stata picchiata, e non smetterò mai di usare quel nome. Per me, transessuale è un nome che è venuto molto di recente. Altre persone si definiscono “trans” per essere accettate dalla famiglia, per essere accettate dalla società. Ma io, che amo colpire le persone e la società, dico che sono una travestita.

Ho visto che eri in una foto con un cartello: sono una travestita e voglio dignità e rispetto. Nella vecchiaia, questa lotta per la dignità e il rispetto è diversa?
Non c’è rispetto quando scoprono che sei una travestita. L’ho sentito un giorno quando sono andata a cercare una casa da comprare e l’avvocato ha iniziato a parlarmi, mi ha chiamato “signora qui, signora lì”. All’improvviso mi ha chiesto di compilare un documento e ho detto “Questo è il mio nome, ma mi piace essere chiamata Anyky”. Poi non mi ha più trattato come una signora, ha iniziato a trattarmi come se fossi un oggetto, una sedia, e talvolta mi ha chiamato “lui”. Orribile. Al momento non avevo ancora cambiato il nome nei documenti. In realtà, non avrei mai pensato di poter rettificare il nome e il genere. Ci sono voluti otto mesi a Rio de Janeiro. Ero così nervosa che ho iniziato a piangere.

Esistono politiche pubbliche per i travestiti anziani?
La salute è la più grande politica pubblica di cui la popolazione trans in generale, e in particolare gli anziani, hanno bisogno. Ma non include i travestiti in generale, e tanto meno i travestiti anziani. Ma a volte sono colpevole anche io perché non parlo di travestiti nella vecchiaia e lo sono. Oggi dobbiamo concentrarci su questa popolazione.

È stato facile per te affrontare il corso degli anni?
Sono una persona molto realistica, amo la mia età, così tanto che non mi tingerò più i capelli. Voglio arrivare oltre i 100 anni. È una gloria per me avere 61 anni, aver attraversato la dittatura, l’AIDS, tutta questa violenza e sopravvivere. È triste solo perché ho visto morire molti amici. Ma penso che raggiungere questa età sia una vittoria per la nostra popolazione. Sono riuscita a sopravvivere, non mi sono comportata male, sono rimasta la donna che sono sempre stata. Oggi mi sento più femminile di prima, è per me una vittoria. Nella militanza, sono riconosciuta e mi sento bene. Forse non dovrei, perché non sono diversa dalle altre ragazze ma oggi posso mettermi di fronte a un delegato e discutere con lui e in passato non ho avuto questa opportunità. Ogni giorno che passa imparo di più e apprezzo ciò che faccio. Perché mi fido di questa comunità. Solo i dolori sono “uó”.

Hai problemi di salute?
Tutti! (Ride). Alta pressione sanguigna, silicone, fa male. Quindi è orribile. E non sto attenta, perché non è un’abitudine per le persone transgender prendersi cura della propria salute. C’è quella mania “Ah, ho mal di testa, vado a prendere una pillola”. Ora ho un medico e non mi lascerò andare perché sento molto dolore a causa del silicone, il mio piede si gonfia molto. Ho avuto un intervento chirurgico lì a Diamantina. Il mio testicolo era di quelle dimensioni (è la dimensione di un pallone da calcio), dovevo prenderne uno. Poi è passato all’altro e ho dovuto rimuovere l’altro. E ho perso tutto l’ormone che avevo nel corpo. E non posso prendere l’ormone perché prendo medicine per la pressione sanguigna, quindi devo andare dal dottore per sapere cosa sta succedendo. Il mio petto ha anche macchie nere a causa del silicone, avrei dovuto operarmi ma il medico mi ha umiliata e ho smesso di pensarci, anche se era tutto pronto.

Pensi che abbia cambiato il modo in cui le persone guardavano le trav?
Penso che oggi ci siano molte persone non LGBT che lottano per il riconoscimento di questa identità. Ma non penso che sia cambiato. Vedo la stessa cosa che mi è successa: le pietre. Le ragazze ricevono addosso ancora pietre, vengono ancora uccise senza che nessuno faccia nulla. Una volta una ragazza è stata pugnalata qui a Pedro II, sono andata lì e quando è arrivata la polizia, “Ah, è una travestita (sic)”, come se non fosse nulla. Quindi penso che non sia cambiato. Le persone usano questa popolazione per il loro benessere, per il loro piacere, ma è come un robot o una bambola che puoi usare o distruggere in qualsiasi momento tu voglia.

Pensano: è marginale, è drogata ed è una ladra. E non lo è. Dimenticano che quando sei in strada sei vicino a tutto. Ma ci sono molte ragazze che escono per strada solo per guadagnare i loro soldi. Non fumano sigarette, erba, non sniffono, non bevono. Ci sono altri che lo fanno, ma questo lo fa qualsiasi essere umano. Il problema è che le persone non vedono le travestite come esseri umani. E nemmeno come animali, perché alle persone piacciono gli animali ma non piacciono le travestite.

La violenza contro i trans è totalmente diversa da quella contro gay e lesbiche, perché gay e lesbiche hanno almeno la definizione: “è un uomo a cui piace un altro uomo”, è la donna a cui piace una donna. E qual è la travestita? Niente. Non è niente, non si adatta a nessuna delle piazze della società. Ed è molto triste essere vista come niente.

Cosa ne pensi di questa nuova generazione?
Penso che non sia cambiato neanche. È proprio come la mia generazione. Vogliamo vivere, vivere, vivere. E pensi che non vivrai a lungo, quindi vuoi vivere nel momento. Tutto nella trav deve essere puntuale, sai? Se vuole un seno, lo vuole in tempo. Se vuole i capelli, li vuole in tempo. Il travestito non vive domani, vive solo nel momento di oggi. Ma anche ai miei tempi era così. Se volessimo assumere l’ormone, prenderemmo un intero pacchetto di ormoni. Anch’io ho fatto due iniezioni di ormoni. Ok, sono svenuta, ma avevo un bel corpo e gambe (ride). Era il dolore della bellezza.

Che consiglio daresti loro?
Vedo molte persone sfruttate perché non c’è studio. Penso che la prostituzione debba essere un piacere: “Lavoro, ma vado in strada perché mi piace e per guadagnare soldi extra”. Non volevo che fare la puttana fosse un must. Ma finché i genitori buttano fuori le ragazze, ciò accadrà.

Quindi non consideri la prostituzione come una professione?
Ci sono persone che la vedono come una professione, ma la gente non la vede come una professione. La gente dice che siamo lì perché siamo una fossa del sesso, facciamo sesso l’uno con l’altro, con il muro, con il manico di scopa. Quindi ci troviamo in una strana situazione. Mi è sempre piaciuto fare la puttana, perché lì ero amata, voluta, picchiata, sculacciata. C’erano cose tristi e cose buone. Ma penso che la prostituzione dovrebbe essere qualcosa che sei perché vuoi, non un obbligo . Perché ci sono persone a cui piace, ma ci sono persone a cui non piace prostituirsi. Mi sono prostituita fino a quando avevo 50 anni, quando sono scesa in strada con consolazione perché avevo già subito un intervento chirurgico ai testicoli.

Sei stato espulsa da casa all’età di 12 anni. Come è successo?
Ero molto ribelle, non ero una brava bambina. Non ho nemmeno detto di essere una travestita, ho detto che ero una donna. Sognavo di sposarmi con un velo e una ghirlanda, non ero contenta che la gente dicesse che ero proprio come mio fratello. Ho detto che volevo essere come mia sorella. E ho avuto un conflitto molto grande con la mia famiglia. Ho litigato, ho urlato che ero una donna che si sarebbe sposata. E quello è stato un grande shock per mia madre, perché era Pernambucana e mio padre era Pernambucano. Erano cugini legittimi, sposati, e avevano tutta quella tradizione alle spalle. Se oggi è difficile per una famiglia accettare, immagina ai miei tempi. Poi è diventato una cosa insopportabile a casa mia, perché non l’hanno davvero accettato. Ho rubato il trucco di mia sorella, ho rubato le mutandine di mia sorella, mia madre non mi ha lasciato dormire nel letto.

Cosa significa la famiglia per te?
Quando sono stato espulsa da casa ho ricevuto un sacco di odio dalla mia famiglia, ma poi ho visto che non avrei potuto odiare. Non è stata solo mia madre a buttarmi fuori di casa, è stata l’intera società che mi ha fatto notare che mia madre avrebbe detto che ero questo o quello. Oggi dico che la mia famiglia l’ho costruita nello stesso modo in cui ho costruito il mio corpo. La mia famiglia sono le ragazze che vivono con me, perché se cado mi aiuteranno. Quindi so di avere sorelle di sangue e tutto il resto, ma è come se non ne avessi una. Lo considero e tutto il resto, ma non mi va di andare a Rio de Janeiro. Vado, resto due giorni e voglio già andarmene. E a volte vedo che alla gente piaccio per un interesse materiale.

Dove sei andata dopo essere stata cacciata?
Sono andaa a Flamengo, sono rimasta sulla spiaggia e c’era un mendicante. Aveva paura di me e io avevo paura di lui. Poi ho iniziato a vedere dove stavano andando le ragazze e ho iniziato anche io ad andare. L’ho preso solo perché non avevo i capelli, i miei capelli stavano iniziando a crescere, non avevo il corpo, non avevo niente e non mi avrebbero accettato. Ho iniziato a vedere che anche le ragazze stavano scappando ed ero curiosa. Quando ho visto che la strada era vuota, sono salita sulla prima macchina che ha chiesto il prezzo. Dopo aver scoperto che qualcosa nel mio corpo faceva soldi, oh, figlio mio, nessuno mi ha più trattenuta. Poco dopo sono andato in zona, a Victoria.

Come sei sopravvissuta? Eri un bambino, avevi 12 anni!
Non ho mai smesso di pensarci, ma nessuno ha avuto pietà di me, nessuno mi ha accolta o ha detto che mi avrebbe portato a casa, niente di tutto ciò. Per le persone, il frocio non è più un bambino. Da quando ti rendi conto che sei un finocchio, non sei più un bambino. Dal momento in cui effettui la transizione, non sei più un bambino. Quindi non sei niente. Questo è tutto, non sei niente. Non so come sono sopravvissuta, ma non ho trascorso molto tempo a Rio. Quando sono andata a Vitória, ho visto altre persone come me ed ero più libera. La polizia dell’epoca non voleva sapere se fosse una minorenne, voleva essere codarda, picchiare, arrestare e rilasciare in seguito. Ricordo che una volta ho preso un sacco di pagaiete in mano. Era molto rischioso, perché a quel tempo non avevo neanche il preservativo ed ero molto fortunata a non ottenere nulla.

In questi giorni sei esempio per le nuove generazioni. Ma in chi ti rispecchiavi quando eri più giovane?
Ricordo Roberta Close, nella sua bellezza e le ragazze che uscirono sulla rivista Manchete. Sono impazzita al Carnevale quando sono usciti gli speciali con quei bellissimi travestiti. C’era quello dei Leopardi [Elloína]. Sono stato ispirato da quella bellezza. A quel tempo dovevamo correre dietro a noi stessi. Non ho avuto il tempo di seguire l’artista, queste cose, abbiamo fatto 20, 30 clienti in una notte.

Ci sono casi eclatanti nella prostituzione?
Questo taglio che ho sul mio viso è stato dato da un ragazzo che ha iniziato a mettere il piede in zona. E ho pensato che fosse il mio proprietario. Un giorno che ero in doccia mi ha tagliato e io l’ho tagliato.

Ancora?
Vivevamo in un vicolo con diverse stanze e pagavamo per viverci. Venivano e dicevano: “Peccato che fossi malata” e mangiavano al ristorante di Gatinha, che era il migliore e produceva una torta di merluzzo che adoravo. A loro piaceva innamorarsi, sai? Poi li ho seguiti e un uomo ubriaco è venuto e mi ha afferrata. Gli diedi una spinta e cadde nel fango. Ma quando è caduto, tesoro, anche il suo portafoglio è caduto ed era pieno. Ho preso il suo portafoglio, i soldi ed ero così disperata che invece di andare al ristorante, mi nascondevo bruciando di febbre nei boschi. Deve essere stato folle, vero? (Ride).

Quando ti sei ammalata, nessuno ti ha aiutata?
Una coda ha aiutato l’altra, sì. Ai miei tempi la compagnia era molto meglio di oggi. Perché quando salivamo in macchina, l’altra coda scriveva la targa, prestando attenzione. Potremmo essere il nemico, ma quando stava lottando, se un ragazzo si diede uno schiaffo in faccia, si sarebbero uniti a lui.

A quanti anni hai iniziato la transizione?
Ho iniziato a prendere l’ormone subito dopo aver lasciato la casa. Ho chiesto loro come avevano allattato al seno e andava in farmacia a comprare l’ormone. Ma anche prima di essere un ragazzo era molto divertente, perché avevo le gambe molto spesse, avevo la pelle molto bianca che gli uomini volevano.

Hai usato silicone industriale ed eri una bomba. Cosa ne pensi oggi?
Penso che sia un crimine. Ho anche promesso a Iansã che non avrei mai più preso un barattolo di silicone. La mia opinione sul silicone industriale è cambiata perché l’ultima persona che ho pompato si è ammalata. Mangiava troppo, Non è morta, no, è in Europa oggi. Ma questo mi ha dato uno shock molto grande. Ero molto preoccupata.

Il silicone ti fa sembrare bello per 10 o 15 anni e poi inizia a “ronzare” tutto. Per me, i medici dovrebbero conoscere meglio i nostri bisogni e sapere che abbiamo bisogno di queste trasformazioni così tanto che anche conoscendo il rischio, le usiamo

Hai avuto un grande amore?
Ne ho avuti diversi. Quando eravamo nella zona, prima andavano i colonnelli, chiudevano l’intera area, a volte uscivano con uno e li pagavano tutti. Arrivò un momento in cui le persone iniziarono a dire che avrebbero costruito lo squalo, che è il porto di una nave. Sono arrivati ​​oltre 3.000 uomini e tutti avevano paura di essere uccisi. Ma niente. Ciascuno ha sposato una coppia di due o tre. Ne ho già sposati quattro (ride).

Che cosa vuoi dire con sposarti?
Sposarsi era fidanzarsi, ci davano soldi, si nascondevano l’un l’altro, uno usciva dalla porta e l’altro entrava. Questo era un luogo di grande violenza, ma portava anche molte cose buone. Ho incontrato un ragazzo di Paraná che era molto bello e sono rimasta a lungo fino alla sua partenza. Poi ho avuto questo ragazzo che mi ha tagliato e l’ho tagliato anch’io. Avevo un ragazzo di cui ero innamorata, ma la sua testa era come gli uomini di oggi: voleva solo mangiare…

C’è stato un uomo che ti ha chiamato fuori dalla prostituzione per una vita per due?
Quello che mi ha dato queste macchine da cucire, che mi ha tagliato e che anch’io ho tagliato. Incontrato a Victoria. Poi è andato a Rio de Janeiro, ha allestito un appartamento, sono andata vivere con lui. Ma è stato a San Paolo tutta la settimana e io ero lì. Mi ha anche lasciato dei soldi, ma i soldi non erano abbastanza per tutto. Sono tornata in strada a combattere.

Cosa potresti dire del periodo di dittatura?
La polizia ci ha arrestato per strada, giusto? Avevano il piacere di picchiarci, arrestarci e ucciderci. Ero sulla strada quando dissero “L’alibam !!!” e se ne andarono tutti. Una volta mi sono nascosta sotto un camion. Un bastardo di un innamorato che vendeva caramelle disse: “ragazzo, ce n’è uno qui”. Ancora oggi maledico questo ragazzo (ride). E il loro piacere era questo: portarci alla stazione di polizia e lavare il bagno, sfilando avanti e indietro per farci schiantare. Ma le travestite nere hanno sofferto mille volte di più. Se nel gruppo c’era una travestita nera, soffriva più di chiunque altro. Era umiliata dal colore, da tutto.

C’è stata una rivolta di fronte a tutta questa violenza?
No, ci siamo sempre rassegnati molto. Fino ad oggi, i travestiti e le transessuali sono conformi a questa violenza. Se dici con una travestita che è stata picchiata: “vai alla stazione di polizia e fai una denuncia”. Dirà: “Non ci andrò, no. Domani sarò lì per strada e mi uccideranno.” Quindi diventa banale. Iniziamo a sentire che meritiamo quella punizione. Iniziamo a sentire che abbiamo torto. La gente fa il lavaggio del cervello per iniziare ad ammettere che è sbagliato, perché anche se lo desideri e sai che è tuo, tutti dicono che è sbagliato, è un peccato. È orribile essere additate per tutta la vita. E la storia del taglio di te stesso con il rasoio? Siamo stati associati a tutto ciò che è malattia, giusto? Quindi i poliziotti avevano paura quando ci tagliavamo.

Sei stata arrestata molte volte?
Molte. C’è stato un tempo in cui siamo stati arrestati ogni settimana a Vitória. Andavano alla porta della zona e ne mettevano una nell’altra mano e la prendevano. C’è stato un tempo in cui la polizia con quell’elmetto bianco ha fatto irruzione nell’area e, hanno colpito molto. C’era molta violenza. Ma ti dico che a volte essere bianca e avere un bell’aspetto ti aiuta. Anche nella violenza c’è quello. Ancora una volta, quando la travestita era nera, era peggio. È una cosa molto degradante.

Hai già perso molte persone vicine a causa della violenza. Vorresti evidenziare il ricordo di qualcuno di loro?
Ho perso una ragazza che viveva in casa mia, che mi piaceva molto. Ha lasciato la mia casa perché aveva un fidanzato, si stava sposando, era molto felice. E la settimana in cui è venuta per invitarmi a un barbecue a casa sua, è morta. È venuta a parlarmi venerdì e domenica è morta. Tiffany. L’hanno pugnalata. Aveva comprato un vestito, era un vestito bianco ed era diventato tutto rosso. L’hanno gettata sotto un camion a Betim. Era una persona così meravigliosa a casa, aiutava sua madre, ogni settimana mandava soldi a sua madre.
Per strada beveva ed era un po’ impertinente. Diceva: “devo solo soddisfare la zia Anyky e mia madre a casa”. E mi ha infastidita. Penso che questa morte mi abbia assalito, perché è stato allora che ho iniziato ad aprire gli occhi delle ragazze. Perché la prostituzione stupida fa molti più profitti. E ho detto che potevano avere un conto in banca, avere diritti, ma si scopre che le persone che ci uccidono non vengono arrestate. E se vanno, finiscono fuori dalla porta principale.

Di notte non esci più per strada. Perché?
Ho avuto molte minacce di morte. La prima paura che ho avuto è stata quando la polizia è entrata in casa mia nel 2009. La mia casa aveva più di 15 ragazze in quel momento. La polizia è entrata in casa, mi ha messo la pistola in testa, mi ha umiliata. Ha umiliato le ragazze, preso a calci i cani. E hanno trascorso un mese irrompendo in casa mia. Dissero che stavo cercando droga e una pistola, ma in realtà volevano che lasciassi BH, per rinunciare a vivere qui.

Un giorno hanno fatto irruzione nella notte a casa e ho chiamato Roberto Chateaubriand, che è un avvocato per i diritti umani. Andò lì e il poliziotto disse di aver ricevuto una denuncia per pistola e droga. Roberto ha detto che erano le 23:00 e che avrei potuto autorizzare l’ingresso della polizia o meno. Ho detto che non avevo nulla da temere, ma che ovunque vadano vado avanti. Il poliziotto militare aveva in mano un foglio e Roberto gli chiese che cos’era, e disse che era il ruolo della polizia federale e che dovevo firmare. Roberto chiese: “Come? Sei un ufficiale di polizia militare e hai il ruolo di polizia federale da firmare, non esiste? ” Il poliziotto ha ottenuto una bestia, ha detto che non sarebbe più entrato e sarebbe tornato con un mandato per mettere il piede nella porta.

È vero che hai avuto problemi con i tuoi vicini?
Ho visto un uomo sdraiato sotto il cancello a guardare dentro. Devono pensare che siamo nude, che una mangia l’altra, che la madre dell’altra è abbastanza e tu mangi la madre dell’altra … È come una padella di noodles, uno che mangia l’altro. La gente deve pensare che dobbiamo fare il bucato, che ci prendiamo cura dei cani, della nostra casa, che mangiamo cibo. Quel sesso è una necessità per fare soldi. Gli uomini e la società ci costringono a prostituirci. Ho sempre sognato di sposarmi con un velo e una ghirlanda. Ma dobbiamo pure pagare le bollette, no?

Perché pensi che le persone siano ancora transfobiche oggi?
È molto più facile da distruggere che da ricevere. Il pregiudizio è una cosa terribile, una malattia molto grave, ma tutti ce l’hanno. Se vedi una travestita sdraiata per strada o un senzatetto, sei disgustato. Non vuoi mettere la mano e vuoi andare il più lontano possibile. Non è vero? Ma poi immagini che quella persona che giace per strada sia tua madre. Abbraccerai quella persona nel modo in cui è lì. No? Accoglierai, abbraccerai senza disgusto e con tutto l’amore. Ma se è qualcun altro lo ignorerai, lo disprezzerai e se nessuno lo ha visto può persino fare qualcosa di male per la persona. Penso che se le persone fossero più amorevoli e attente, tutto sarebbe più facile.

Riesci a identificare chi rinforza questa transfobia?
Quello che vedo sono le persone che pensano: “Perché mi unirò a te se sei una persona così sporca?” Tollerano persino di usarci in qualsiasi momento, ma nessuno può essere visto con noi. E una ragione è perché la Chiesa ci detesta. Vedo la Chiesa ogni giorno, anche ora in TV, che incita alla violenza contro questa popolazione. Ma cos’è questo Dio? Il mio dio è un dio dell’amore. Il dio che conosco si ribellò, non era il vagabondo, non era il nero, il travestito, si ribellò alle persone che lo stavano usando per commerciare, sfruttando la fede dell’altro. Ma la società chiude gli occhi perché hanno molti soldi. Perché smettere di dare valore a qualcuno che ha molti soldi per valorizzare una travestita che non ha nulla e la sua stessa famiglia ha magari rifiutato?

Penso che l’educazione dovrebbe iniziare a casa, perché la prima violazione arriva a casa. Ma penso che il grande colpevole, oltre alla religione e alla mancanza di educazione familiare, sia di quelli al potere. Vedi che al momento delle elezioni tutti baciano un bambino di corsa, danno una pacca sulla spalla a tutti, baciano il nero, abbracciano i travestiti, ma poi corrono da te. È perché quando diventi trans perdi ogni legame, perché diventi sporco, perché ti circondi di sesso. Ed è ipocrisia perché tutti fanno sesso, a tutti piace. Ma solo noi diamo. Come se il vicino non avesse dato. Come se il vicino non avesse dato. Come se suo figlio non avesse mangiato.

Bene, dal momento che ti aspetti di avere 100 anni, cosa farai nei prossimi 40, 50 … anni?
Continuerò nella lotta, non mi arrenderò. Creerò una ONG, Trans Viver, ma non per me. Voglio dare potere alle altre ragazze. La militanza sei tu, è noiosa, non ottieni nulla, la spendi, dirai le stesse cose alle stesse persone, parteciperai a 20 incontri che non decolleranno. Quindi devi avere molta perseveranza e tanto amore per la lotta che desideri. Se ho 20 ragazze e ho due ragazze che vogliono affrontare e lottare per i diritti, posso farlo. Sarebbe una gloria.

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