Por Neto Lucon
Revisão: Camila Nishimoto

“A travesti mais bonita do Brasil”. Foi assim que Patricia Araújo foi anunciada em uma entrevista realizada por mim ao site Virgula e ao site Yahoo! em 2011 para falar sobre sua carreira, oportunidade na moda e comentar o novo fenômeno que surgia nas passarelas: a Lea T. O título chamariz “de mais bonita” foi questionado e reivindicado por muitas, mas grande parte compreendeu só de olhar as primeiras imagens.

Com 1,80m, rosto de boneca, cintura fina, olhar sedutor, quadris largos, pernas grossas e uma maneira muito charmosa de mexer nos longos cabelos pretos, Patricia já era considerada um mito de beleza há muito tempo. Ganhou inúmeros concursos de beleza nacionais e na Europa, bem como o Miss Brasil Trans 2002, Miss T-Girl World 2004 e Miss Universo Trans 2005, e inspirava muita gente.

Também havia feito história ao ser a primeira travesti a desfilar no encerramento do Fashion Rio pela grife Complexo B em 2009. E brilhou. O jornal “o Dia” a colocou em uma página inteira com o título: “Que Gisele, o quê? Patrícia Araújo será a grande estrela do Fashion Rio”. E, como Gisele Bundchen era eleita por diversas revistas como a “mais bonita do mundo”, achamos justo retribuir o título de “travesti mais bonita do Brasil” para aquela que ocupou espaço e fez bonito.

Na entrevista por telefone, Patricia disse: “Vencer os concursos sempre foi uma vitória a mais. Nasci um menino, com corpo de menino e espírito de mulher. Hoje sou vista como uma figura totalmente feminina e admirada por isso. Me sinto realizada por minha família ver o que sou, chegar à casa da minha mãe e ver inúmeros troféus, faixas. Não é aquela coisa de vaidade. É mais uma questão de vitória. Eu consegui, consegui meu espaço. É maravilhoso”, disse, ressaltando que não queria ser uma versão de Gisele, mas de Deborah Secco, que na época vivia a personagem Natalie Lamour, da novela Insensato Coração, da TV Globo.

A matéria repercutiu, sendo uma das mais acessadas do dia e tendo visibilidade na home do site UOL. Foi por meio de todo esse frisson, haters e muitos elogios, que ela foi convidada para posar para um ensaio fotográfico do Virgula Girl. A editoria geralmente trazia ex-BBBs, assistentes de palco e mulheres-frutas. Todas cisgêneras. Patricia seria a primeira travesti da história a ocupar o lugar e assim foi feito. Evidentemente fui responsável pela indicação, mas nada teria acontecido se não fosse a própria Patricia e o apoio do jornalista Vitor Ângelo e da aprovação da diretora de conteúdo Claudia Assef.

SER TRAVESTI NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA

Patricia nasceu na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, em uma família de classe média-baixa e evangélica. Foi designada menino ao nascer, mas sempre teve a feminilidade como uma das maiores características. O que facilitou quando revelou ao mundo que era Patricia e na vivência enquanto pessoa de identidade feminina na sociedade, mas que também a fez enfrentar muitas pelejas ainda na infância e adolescência.

Sou mulher. Eu sempre me pareci com uma e nunca tive dúvidas sobre a minha sexualidade. Eu ainda era bebê e as pessoas falavam para a minha mãe: ‘Nossa, como a sua filha é linda”, declarou em entrevista à Contigo, em 2013.

Na escola, poucos entendiam quem era aquele “garoto tão garota”. E, enquanto os meninos tentavam abusar dela na ida ao banheiro, a diretora da escola a chamava para conversar regularmente por não entender sua feminilidade tão aparente. Aos 12, deu o primeiro beijo em um colega que se apaixonara por ela. Aos 13, depois de tanto ser pressionada, revelou para a diretora que gostava de garotos. Resultado: foi expulsa da escola por “mal comportamento”. Não havia nem completado a sétima série.

Em entrevista à Marie Claire, Patricia disse que a expulsão motivada pelo preconceito institucional foi o seu maior trauma. Mas que impulsionou a dar um grande passo em sua vida: contar tudo para os pais, o segurança Severino e a dona de casa Terezinha. Disse com todas as letras que gostava de rapazes e que se sentia na verdade uma mulher. Ela conta que os pais, apesar de ficarem assustados num primeiro momento, não discriminaram. O irmão mais velho não aceitou, mas na mesma hora o pai interveio, dizendo que independente de qualquer coisa Patricia era filha dele e que contaria com o apoio.

Aos 13 anos, passou a tomar os primeiros hormônios, por intermédio de uma travesti que morava perto de sua casa. Ela disse que os anticoncepcionais a dariam formas delicadas, como de qualquer mulher cisgênera. Apesar de fazer o uso sem acompanhamento médico, o que já era bastante visto como feminino passou a ficar cada vez mais. Com os hormônios, Patricia também evitou que caracteres secundários atribuídos ao masculino, como barba e pomo de adão, por exemplo, se desenvolvessem em sua puberdade. Transformava-se em uma linda mulher.

Mas se cada vez mais ela fazia as pazes com o espelho e via seus pretendentes aumentarem, era só pisar fora de casa para sentir na pele o peso da transfobia. Patricia era conhecida como “o travesti do bairro” e era alvo de apontamentos, piadas e chacotas de vizinhos. Tudo piorou quando passou a ser alvo de fofocas e mentiras cada vez mais frequentes. Ela afirmava que foi um período difícil e que tanto preconceito a deixava muito abalada, mas que suportava principalmente porque os pais a respeitavam.

ELOGIE UMA TRAVESTI

Patricia veio ao meu encontro no dia 17 de setembro de 2011, para posar para o tal ensaio sensual histórico do site Virgula. Nos conhecemos no prédio do portal, localizado naquele período em plena Avenida Paulista, em São Paulo. Ela vestia uma calça de lycra cinza e uma blusinha branca que deixava a barriga à mostra. Todos estavam de olho nela, confirmando todo o frisson que eu já suspeitava que ela provocava. A identificação foi imediata e conversamos pela manhã sobre a vida, carreira e a temática do ensaio.

Enquanto caminhávamos pela rua e conversávamos, percebi que um homem de terno nos acompanhava. Ele suava frio e parecia estar nervoso. Me assustei num primeiro momento, lembrando que a Avenida Paulista que abraça a Parada do Orgulho LGBT é a mesma que coleciona diversos casos de violência contra LGBTs, a mais conhecida delas ocorreu em 2010, um ano antes, quando jovens foram agredidos com lâmpadas fluorescentes.

Foi então que o homem a abordou:
_ Você é a Patricia Araújo? Sou seu fã. Você é uma mulher muito linda. Sempre quis te conhecer.
– Não, bebê. Eu não sou uma mulher – disse ela, mexendo nos cabelos longos, com expressões de uma pin-up pós-moderna. E continuou: Sou uma travesti.

O rapaz engoliu a seco e respondeu de volta: – Claro, me desculpe, você é uma travesti muito linda. Pode me passar o seu número?
Perguntei depois se ela não se considerava mulher, afinal mulheres trans e travestis também se identificam com o feminino e devem ser tratadas como tal. Ela respondeu que sim, mas que naquele momento quis se valorizar e tirar da boca dele um elogio público para o fato de ser travesti. Depois, em outra conversa, declarou que se o homem tem problema em verbalizar que se relaciona com uma travesti, não é um homem que mereça sua atenção na vida cotidiana.

MERCADO DO SEXO E CINEMA PORNÔ

O primeiro relacionamento sério de Patricia ocorreu quando ela era menor de idade, de 14 para 15 anos. O pretendente era um homem 30 anos mais velho e muito rico, sobre o qual ela nunca gostou de comentar quem era ou o que fazia. Foi ele que a levou para São Paulo, pagou pelas cirurgias no nariz e nos seios e proporcionou a ela uma vida dos sonhos.

Com quatro anos de casada, o homem passou a ter crises de ciúme, começar a vê-la como uma de suas posses e o relacionamento começou a ficar extremamente abusivo. Após a situação ficar insustentável, Patricia abandonou a vida que levava e voltou para o Rio de Janeiro.

Concluiu os estudos por meio do supletivo, mas ainda assim encontrou dificuldades de  inserir-se no mercado formal de trabalho. A esquina tornou-se sedutora, afinal era onde outras travestis estavam, e também a única opção. A partir daí ela passou a pagar as contas como profissional do sexo, uma realidade para muitas pessoas trans e travestis do mundo. Segundo a Antra, estima-se que 90% das travestis do Brasil trabalham como profissionais do sexo, cuja maioria não o faz por escolha, mas devido ao preconceito e imposição social.

Não é prazer fazer parte de um grupo marginal. Ninguém que se prostitui é totalmente feliz”, declarou. “Olha, a prostituição é como uma droga, um vício, algo que absorve toda a sua energia e te faz escrava. Pode acabar com você. Mas criei um escudo que separa meu corpo da alma. O que vendo é meu corpo, nunca minha alma. E isso liberta”, declarou ela à Marie Claire, em 2008.

Com 17 anos, entrou para o cinema pornô, sendo conhecida e anunciada como Patricia Chantily ou Patricia Dollface. O primeiro filme foi Rogue Adventures 5, em 1999, em que fez uma cena dupla com Julio Vidal, que hoje é pastor evangélico, e Fabio Scorpion, ícone do pornô que morreu em 2004 após uma cirurgia para aplicar silicone na panturrilha. Ela protagonizou outros 11, sempre como destaque de capa. Chegou a gravar também com Camilla de Castro, travesti ícone de beleza e sua amiga que cometeu suicídio em 2005.

Com um ano trabalhando e juntando dinheiro, embarcou rumo a Itália. Conseguiu ganhar muito dinheiro e ajudar sua família com bens, como a casa que comprou para os pais. Patricia revelou que, apesar de ter tido a sorte de não ter se deparado com clientes agressivos, conheceu o lado nada saudável da competição com outras travestis e mulheres trans que faziam programa. “É um submundo podre e triste. Como todas já sofreram muito, encaram a vida de um jeito duro e predatório. Penei para me adequar”, relembrou ela.

Dentre as revelações mais surpreendentes, Patricia contou que chegou a trabalhar como acompanhante em Dubai, nos Emirados Árabes. Um sheik árabe ficou encantado com a beleza das travestis brasileiras e mandou contratar Camilla de Castro e Patricia. Como Camilla estava passando por problemas pessoais, Patricia teve que embarcar nessa aventura sozinha. “Lá eu usava burca para não sofrer preconceito. Fui alertada para só andar com o olhar para baixo e não encarar ninguém”, declarou à Contigo!.

BELEZA E ESTRELA

Patricia já tinha inúmeras fotos e ensaios espalhados pela internet. Os temas variavam entre torcedora do Brasil, colegial e noiva. Em 2009, foi a primeira modelo travesti a posar quase como veio ao mundo para a capa da revista carioca “A Gata da Hora”, espaço habituado geralmente por musas cisgêneras,  como a Mulher Melão. Nos cliques, ela aparecia ao lado de Paloma Sanchez. Um produtor declarou que a intenção é de que os leitores pudessem compará-las.

Dois anos depois, a modelo se preparava para o nosso ensaio do Virgula Girl, fotografado por Gabriel Quintão, clicado dentro da extinta boate Glória, que anteriormente era uma igreja, na Rua 13 de Maio. Ela mesma escolheu o figurino em uma loja especializada em peças sensuais e dividiu comigo os custos de uma peça de medalhas que não fazia parte da permuta do espaço. Enquanto provava, conversava com o TV Fama, da RedeTV!, que cobria o ensaio.

Nos bastidores, senti que ela estava um tanto insegura de ser fotografada em algumas partes do corpo, resultado de algumas reações pontuais do silicone industrial – produto que não deve ser aplicado no corpo humano, mas que foi e ainda é frequente na construção da identidade travesti. Mas com um pouco de maquiagem no bumbum e nas pernas, algumas peças que favoreciam e lá estava ela, pronta para trabalhar em fotos sensuais, não eróticas e sem nudez.

Assim que as fotos iniciaram, Patricia Araujo se transformou totalmente. Era uma modelo que sabia seus melhores ângulos, caras, bocas e uma pessoa que era dona e apaixonada pelo seu corpo. Quase não precisou de direção e em menos de uma tarde tudo estava pronto. Sim, a travesti mais bonita do Brasil não se considerava perfeita, mas tinha algo que fazia questão de pontuar: “Tenho estrela e isso faz a diferença”. De fato brilhava.

A jornalista cis Mônica Apor, que trabalhava na RedeTV!, esteve lá para uma matéria sobre Patricia e o título de mais bela do Brasil. A jornalista perguntou ainda se ela não seria uma bela candidata para ser panicat – num momento em que Nicole Bahls e Juju Salimeni haviam sido afastadas do programa Pânico na TV, da RedeTV!. Patricia ironizou que era tímida e semanas depois realmente foi cotada. Em seguida, a jornalista quis saber se Patricia realmente havia ficado com o jogador Adriano Imperador. Ela desconversou: “Minha boca é um túmulo”.

MODELO E ATRIZ

Com muitos títulos de beleza, fama pelos filmes adultos e frisson pelos ensaios, Patricia poderia se manter como uma musa entre as travestis e seus admiradores. Mas foi além. O mais surpreendente é que conseguiu estourar a bolha, driblando o preconceito por ser travesti, o preconceito por ter trabalhado como profissional do sexo e o preconceito por falar sobre todas essas questões abertamente.Tudo conquistado por meio da beleza, da simpatia e da tal estrela que ela sempre mencionava.

Em 2009 caiu nas graças do estilista Beto Neves, da grife Complexo B, que a chamou para desfilar no badalado Fashion Rio. O convite surgiu porque Beto trazia em sua coleção uma homenagem à malandragem e à boemia da Lapa, que reunia muitas tribos, dentre elas as travestis. A presença da modelo new face, que ocorreu um ano antes do fenômeno Lea T, repercutiu na imprensa e rendeu a comparação com Gisele Bündchen.

Graças ao desfile, Patricia passou a dar entrevistas para programas de TV, tirar registro para trabalhar como atriz e teve portas abertas para fazer algumas pontas. A primeira foi uma participação na novela A Luz do Sol, da TV Record. No mesmo ano, esteve na série A Lei e O Crime, da Record, em que viveu uma travesti profissional do sexo que se envolve com um galã de novelas e que aparece assassinada. O episódio gira em torno deste assassinato.

Em entrevista ao NLUCON, em 2011, a atriz disse que toda a repercussão do desfile e participações foram realizações, mas que a deixaram assustada. Ela revela que tentou entrar em uma agência de modelos, mas teve as portas fechadas logo na primeira conversa. O dono da agência declarou que era impossível colocá-la no casting, pois era uma agência de família e muitos pais não gostariam de ver uma travesti ao lado de suas filhas cis. “Fora do Brasil é diferente. Em Roma, uma menina me chamou para um trabalho de biquíni.  Acho que o preconceito é quebrado quando a gente consegue a oportunidade”.

Outro convite ocorreu em 2013. Patricia Araujo entrou no elenco da novela Salve Jorge, da TV Globo, escrita por Gloria Perez. Era a Priscila, uma travesti que havia sido enganada por Wanda (Totia Meirelles) e que traficada para a Turquia para se prostituir. Foi ali que Patricia conseguiu mostrar o lado atriz, com fala, atuação e troca de figurinhas com artistas cisgêneros como Adriano Garib, Nanda Costa e Roberta Rodrigues em pleno horário nobre da TV. Por fim, fez uma ponta no filme “O Vendedor de Passados”, com Lazaro Ramos, que fui conferir no cinema só por causa dela.

PRECONCEITO E INVEJA

No fim de setembro, todos estavam ansiosos para conferir o ensaio sensual de Patricia Araujo no Virgula Girl. Foi uma das maiores audiências das estreias dos ensaios. O site UOL divulgou o ensaio na home com o título “Patricia Araújo: surpreenda-se com o ensaio sensual desta travesti” em meio as matérias mais importantes do dia. Foram mais de 2 milhões de pageviews somente no dia de estreia, muitos elogios e muitos haters.

Em um discurso pronto, Patricia dizia que fechava o preconceito na gaveta e que não pensava nele. Em outros momentos, dizia que enfrentava muita inveja e perseguição. Tanto de outras travestis, quanto de mulheres cis e até de homens gays cisgêneros. “Às vezes estou em uma loja e uma mulher chega, dá um olhar de inveja e depois começa a rir. Hoje mesmo uma mulher passou por mim com o namorado e, quando viu que ele me olhou, disse: “Não é mulher, é travesti”, comentou ela.

Depois do ensaio, Patricia curiosamente pediu para comemorarmos as fotos em uma sauna gay de São Paulo, que ela havia ido há muitos anos. Ao chegar, tivemos que fingir que éramos namorados e ela só conseguiu entrar porque a documentação ainda estava com o nome de registro e sexo atribuído ao masculino. Quando Patricia atravessou aqueles corredores, todos os garotos de programa do espaço passaram a ir atrás dela, rejeitando todos os homens que aguardavam sedentos nas mesas. O sucesso foi tão grande que os clientes começaram a reclamar da presença da modelo e o dono da sauna veio pedir nossa retirada.

Saímos logo, pois recebemos um convite para ir à The Week, um clube de elite em São Paulo conhecido por gays musculosos. Foi marcante ver a pista se abrir para a atriz dançar e sambar em uma mistura de eletrônico e samba. Mas foi desesperador pouco depois ver diversas travestis, mulheres trans e cis a empurrarem, puxarem o cabelo, pisarem no pé dela e ficarem provocando. Ela não revidava, mas não abaixava a cabeça.

Poderia elencar uma série de reclamações de Patricia sobre tais perseguições, que iam desde denúncias quando estava fora do Brasil, haters nas matérias em que participava, até reclamações de atrizes quando era convidada para pontas em novelas. Mesmo aquelas que deveriam ser as primeiras a apoiar achavam um absurdo ter que dividir espaço com uma atriz pornô e tentavam boicotar.

Durante muito tempo, falar sobre a existência de uma modelo travesti e de uma atriz travesti era motivo de piada e desdém, sobretudo se esta travesti fosse associada à prostituição. Mas apesar de todas as pressões e de ficar extremamente triste, Patricia mantinha-se firme no seu sonho. “Sempre quis brilhar. Tinha esse sonho em ser sucesso, mas nem todos entendem isso. Tenho talento e muita vontade de dar certo. Só precisava de uma boa oportunidade”, declarou ela em matéria da Contigo! no período de Salve Jorge.

AMIZADE

Realizei inúmeras matérias com a modelo e atriz. Desde participações dela na TV, outros ensaios, pontas em novelas e outras entrevistas. Ela também participou da coluna “Trans em Debate”, em que pessoas trans davam opiniões exclusivas ao NLUCON sobre os mais diversos assuntos. Dentre eles, Patricia opinava se o homem que gostava de travesti era ou não gay. “São héteros, nossa imagem é feminina e o gay não se interessa por essa imagem”, opinou.

Patricia sentia receio de sair nas matérias do NLUCON, pois dizia que sempre era perseguida por parte de nossas leitoras. Mas topava, principalmente pelo respeito que tinha por mim, pela repercussão positiva com outra parte e para não me deixar na mão quando todos os demais sites publicavam algo.

Falávamos sobre todos os assuntos e tivemos momentos de uma amizade inocente, sincera e parceira. Certa vez, veio para São Paulo de carro com um namorado e nos levou para o Hopi Hari. Em outra, comprou uma camiseta com a frase “Good Vibes” de aniversário. Quando voltei do trabalho, em uma das visitas dela, quase não reconheci meu apartamento, pois ela havia feito uma faxina geral. Também me recebeu no apartamento dela em Copacabana algumas vezes, preparou um macarrão delicioso e até brindamos a chegada do Papa Francisco.

Jamais vou esquecer da noite em que eu estava triste por qualquer motivo e ela me acompanhou até a praia. Disse que um bom mergulho no mar me faria repor as energias. Ela me levou até a praia de madrugada e ficou tirando fotos minhas naquele momento mágico. Jamais vou esquecer as noites em que falávamos sobre a vida, a sociedade e estratégias para querer se manter vivo.

Relendo algumas entrevistas, me arrisco dizer que nos unimos porque o bate-papo superou o assunto que grande parte esperava e incentivava para ela: o sexo. “A minha maior aflição é saber que represento sexo. Ninguém me pergunta se eu li tal livro, ninguém quer bate papo ou ir ao cinema. Sou sinônimo de sexo e isso me deixa carente por um tipo de amor que não esteja vinculado a sexo ou a dinheiro”, soltou na Marie Claire.

Algumas pessoas também diziam que ela era muito difícil de se lidar e que em alguns momentos foi esnobe. Questiono se o comportamento não foi apenas uma casca que ela desenvolveu ao longo da vida para sobreviver e revidar as violações que sofria.

CARNAVAL E CINZAS

Outro ponto alto na trajetória de Patricia foi a presença marcante nos carnavais cariocas. Lembrando que as travestis sempre foram ressaltadas no período carnavalesco, seja com bailes voltados para travestis ou com a presença de travestis nos desfiles tradicionais. Vale lembrar que a primeira rainha de bateria na história uma travesti: Eloína dos Leopardos, pela Beija-Flor, em 1976. Já Patricia desfilou desde os anos 2000 para a Caprichosos de Pilares, Portela e Grande Rio.

Chegou a ser musa da Porto da Pedra e destaque da Mocidade. Em 2007, chegou a passar no tradicional “aviãozinho da Globo” e conta que William Bonner ofereceu o elogio, ainda que não a conhecesse: “Bela sois vóis entre as mulheres”, ressaltando que era uma das mais belas mulheres do Brasil.

Mas foi em 2014, quando Patricia representou Alamoa pela Mocidade, na ala de Fernando de Noronha, que um episódio controverso e trágico aconteceu. Ela estava com os seios à mostra e em lugar de destaque no momento em que um paparazzo começou a tirar fotos estrategicamente de baixo, que mostravam parte de seu genital. A imprensa explorou o “flagra”, ressaltou algumas partes do corpo em posições que não a favoreciam, e Patricia foi duramente criticada, ofendida e alvo de chacota nas redes sociais.

Diversas pessoas tentaram defendê-la, dizendo que era óbvio que veriam um genital debaixo de seu biquíni (“esperavam ver um papagaio azul?”, como sugeriu Sayonara Nogueira) mas as agressões verbais, críticas e xingamentos – inclusive de pessoas que diziam apoiá-la – foram fortes demais para Patricia. Houve quem disse que ela fez de propósito para ter mídia e aparecer. Mas todo aquele bafafá e exposição fez Patricia chorar, querer se recolher e tentar uma vida reclusa.

VIDA PACATA E DEPRESSÃO

Querendo se apoiar no anonimato, Patricia chegou a ficar um tempo loira, viajou novamente para a Europa e até tentou abrir um salão de beleza no Rio de Janeiro. Em 2016, ela topou falar com a gente: “Estou vivendo a vida, cuidando de mim, preferindo ficar mais anônima. Depois de toda a exposição que tive, precisava dar uma sumida, me recolher e pensar em tudo. Tinha muita gente falsa se aproximando, muita energia negativa. E eu sou da paz, do amor e gosto de energias positivas”.

Ao ser questionada se teria desistido da carreira artística, ela declarou: “Boas oportunidades para travestis aparecem uma a cada década. Então não dá para contar apenas com esse trabalho e nem dá para pensar só nessa carreira. Não é como as atrizes (cis) que emendam novelas inteiras e já estão escaladas para as próximas. Para as atrizes travestis e transexuais falta oportunidade de trabalho, da gente mostrar de fato o nosso talento”.

Em 2017, Patricia começou a ter forte depressão, tentou suicídio e conseguiu ser salva a tempo. Ela relatou que uma briga familiar a teria deixado ainda pior, pois nada seria pior que ver balançado este laço. Nesta segunda-feira (08), comecei a ser perguntado por várias pessoas se ela havia morrido. Num primeiro momento disse que não, até porque ela já havia pregado uma peça em mim há alguns anos e me deixado muito bravo e mal. Mas infelizmente desta vez não era uma maneira de pedir socorro. A morte foi confirmada.

Patricia morreu na quinta-feira (04), após ter ficado 10 dias internada com problemas de saúde decorrentes de um quadro de depressão no Hospital Municipal Doutor Arthur Ribeiro de Saboya, em São Paulo. Foi embora em um sopro, deixando amigos, familiares e fãs desolados. O corpo foi levado para o Rio de Janeiro no sábado (06) e enterrado no domingo (07) na Ilha do Governador, onde nasceu. A família não quis que a imprensa ou outras pessoas soubessem da morte, mas após os rumores se confirmarem, todos os sites  anunciaram.

Ela tinha apenas 37 anos quando se foi, fazendo parte da baixíssima expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil, que é de 35 anos. A morte precoce também alerta para a depressão e a falta de acolhimento às quais pessoas LGBT estão submetidas. Em nossa última conversa, perguntei: “Patricia, você está bem? Você é muito importante para mim”. Ela respondeu: “”Estou bem melhor, amor. Comecei a sair mais, isso faz bem, grupos de amigos. Tenho fé que isso tudo foi para me fortalecer. Você também é muito importante. Vamos um dar força ao outro e seguir em frente. Ainda iremos dar altas gargalhadas disso tudo, tenho certeza. Somos do bem e mal nenhum nos alcançará”.

Em meio a essa trajetória – que não tem nem 1% de tudo o que ela já viveu e aprontou – sabemos que Patricia não precisava ser comparada a nenhuma mulher cisgênera, como muitas vezes tentaram fazer. Sempre foi Patricia Araújo e escreveu o seu nome como uma das travestis mais importantes e marcantes. Talvez reafirmar sua beleza e reconhecê-la mais uma vez pelas expectativas de padrões binários e cisnormativos de feminilidade, que nem sempre podem ser medidos pela régua de todos, não devesse mais ser um dos únicos fatores para elevá-la a alguma coisa. Patricia conquistou o país pela beleza física dentro de um padrão, mas estava além disso.
Era amiga, filha, irmã, talentosa, divertida, sorridente, modelo, atriz, preocupada com o outro. Era um ser humano brilhante, único, que fez história e que já faz muita falta na vida de muita gente.

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Scopri la storia di Patricia Araújo (1982-2019), la transessuale più bella del Brasile

La transessuale più bella del Brasile“. È così che Patricia Araújo è stata annunciata in un’intervista che ho realizzato nel sito Virgula e Yahoo! nel 2011 per parlare della sua carriera, le opportunità di moda e commentare il nuovo fenomeno che stava emergendo sulle passerelle: Lea T. Il titolo “la più bella” è stato messo in discussione e rivendicato da molti, ma la maggior parte ha capito solo guardando le prime immagini .
Con 1,80m, un visino da bambola, una vita sottile, sguardo seducente, fianchi larghi, gambe grosse e un modo molto affascinante di toccare i lunghi capelli neri, Patricia era stata a lungo considerata un mito della bellezza. Ha vinto numerosi concorsi di bellezza nazionali ed europei, Miss Brasil Trans 2002, Miss T-Girl World 2004 e Miss Universo Trans 2005 e ha ispirato molte persone.

Ha fatto la storia essendo stata la prima travestita a sfilare alla chiusura di Fashion Rio per il marchio Complexo B nel 2009. E brillava. Il quotidiano “O Dia” ha pubblicato su una pagina intera con il titolo: “Chi Gisele, chi? Patrícia Araújo sarà la grande star di Fashion Rio”. E, poiché Gisele Bundchen è stata eletta da diverse riviste come la “più bella del mondo”, pensiamo che sia giusto restituire il titolo di “transex più bella del Brasile” a colei che ha fatto così tanto parlare di se in bene.

Nell’intervista telefonica, Patricia ha dichiarato: “Vincere i concorsi é sempre stata una vittoria extra. Sono nata un ragazzo, con il corpo di un ragazzo e lo spirito di una donna. Oggi sono vista come una figura totalmente femminile e ammirata per questo. Mi sento appagata che la mia famiglia abbia visto ciò che sono, mia madre a casa colleziona innumerevoli trofei, fasce. Non è una cosa di vanità. È più una questione di vittoria. L’ho fatto, ho ottenuto il mio spazio. È meraviglioso”, ha detto, sottolineando che non voleva essere una versione di Gisele, ma di Deborah Secco, che all’epoca viveva il personaggio di Natalie Lamour, nella telenovela “Insensato Coração”, su TV Globo.

L’articolo riverberava, essendo uno dei più accessibili della giornata e avendo visibilità nella home del sito UOL. Ha avuto molti commenti, critiche e complimenti ed è stata invitata a posare per un servizio fotografico di Virgula Girl. L’editoriale di solito presentava ex BBB, assistenti teatrali e donne del mondo glamour. Tutte cisgender. Patricia sarebbe stata la prima transex della storia a ed è stato fatto. Ovviamente sono stato responsabile della sua nomination, ma nulla sarebbe successo se non fosse stato per la stessa Patricia e il sostegno del giornalista Vitor Ângelo e l’approvazione della direttrice dei contenuti Claudia Assef.

ESSERE TRANSESSUALE NELL’INFANZIA E ADOLESCENZA
Patricia è nata sull’isola del Governador, a Rio de Janeiro, in una famiglia evangelica della classe media. È stata designata come un ragazzo alla nascita, ma ha sempre avuto la femminilità come una delle sue più grande caratteristica. Il che ha reso più facile quando ha rivelato al mondo che era Patricia e viveva come una persona dell’identità femminile nella società, ma che ha anche portato molte difficoltà nell’infanzia e nell’adolescenza.
“Sono una donna. Ho sempre avuto l’aspetto di una femmina e non ho mai avuto dubbi sulla mia sessualità. Ero ancora una bambina e la gente diceva a mia madre: “Wow, quanto è bella tua figlia“, ha detto in un’intervista a Contigo nel 2013.

A scuola, pochi capivano chi fosse quel “ragazzo così ragazza”. E mentre i ragazzi cercavano di abusare di lei mentre andavano in bagno, il preside della scuola la chiamava per parlare regolarmente perché non capiva la sua apparente femminilità. A 12 anni, ha dato il suo primo bacio a un compagno di scuola che poi si era innamorato di lei. A 13 anni, dopo essere stata così sotto pressione, ha rivelato al preside che le piacevano i ragazzi. Risultato: è stata espulsa da scuola per “cattivo comportamento”. Non aveva nemmeno completato la terza media.

In un’intervista a Marie Claire, Patricia ha affermato che l’espulsione motivata dal pregiudizio istituzionale è stato il suo più grande trauma. Ma questo l’ha spinta ad un grande passo nella sua vita: raccontare tutto ai suoi genitori, la guardia Severino e la casalinga Terezinha. Disse che le piacevano i ragazzi e che si sentiva davvero una donna. I genitori, nonostante fossero inizialmente spaventati, non la discriminarono. Il fratello maggiore non accettò, ma il padre intervenne, dicendo che indipendentemente da qualsiasi cosa Patricia era sua figlia e poteva contare sul suo sostegno.

A 13 anni, ha iniziato a prendere i primi ormoni grazie a una transex che viveva vicino a casa sua. Ha detto che i contraccettivi le avrebbero dato forme delicate, proprio come qualsiasi donna cisgender. Nonostante lo usasse senza controllo medico, ciò che era già ampiamente visto come femmina divenne sempre di più. Con gli ormoni, Patricia ha anche impedito ai tratti secondari attribuiti al maschio, come la barba e il pomo di Adamo, ad esempio, di svilupparsi nella sua pubertà. Era una donna bellissima.

Ma anche se faceva sempre più pace con lo specchio e vedeva i suoi pretendenti aumentare, appena usciva sentiva il peso della transfobia sulla sua pelle. Patricia era conosciuta come “la transessuale di quartiere” ed era oggetto di bullismo, battute e prese in giro da parte dei vicini. Tutto peggiorò quando divenne il bersaglio di pettegolezzi e bugie sempre più frequenti. Sosteneva che era un momento difficile e che così tanti pregiudizi la rendevano molto scossa, ma che la sopportava principalmente perché i suoi genitori la rispettavano.

ELOGIO DI UNA TRANSESSUALE
Patricia mi ha incontrato il 17 settembre 2011 per posare per lo storico set sensuale del sito Virgula. Ci siamo incontrati presso l’edificio del portale, situato in quel momento nel mezzo di Paulista Avenue, a San Paolo. Era vestita con pantaloni di lycra grigi e una camicetta bianca che mostrava la sua pancia. Tutti la stavano tenendo d’occhio, confermando tutto il brivido che già sospettavo stesse provocando. L’identificazione è stata immediata e al mattino abbiamo parlato della vita, della carriera e del tema del saggio.
Mentre camminavamo lungo la strada e parlavamo, notai che un uomo in giacca e cravatta era con noi. Sudava freddo e sembrava essere nervoso. All’inizio ero spaventato, ricordando che Paulista Avenue, che abbraccia il LGBT Pride Parade raccoglie diversi casi di violenza contro le persone LGBT, il più noto dei quali si è verificato nel 2010, un anno prima, quando i giovani sono stati picchiati con lampade fluorescenti.

Fu allora che l’uomo le si avvicinò:
-“Sei Patricia Araújo? Sono un tuo fan. Sei una donna molto bella. Ho sempre voluto incontrarti.”
– “No, piccolo. Non sono una donna”, disse, agitando i suoi lunghi capelli, con espressioni di pinup postmoderno. E ha continuato: sono un travestito.”
Il ragazzo deglutì a fatica e rispose: “Certo, mi dispiace, sei un travestito molto bello. Puoi darmi il tuo numero?”
Ho quindi chiesto se non si considerava una donna, dopo che tutte le donne trans e travestiti si identificano anche con la femmina e dovrebbero essere trattate come tali. Disse di sì, ma in quel momento voleva apprezzare se stessa e farsi un complimento pubblico per essere un travestito. Quindi, in un’altra conversazione, ha affermato che se un uomo ha difficoltà a capirlo, non è un uomo che merita la sua attenzione nella vita di tutti i giorni.

MERCATO DEL SESSO E CINEMA DEL PORNO
La prima relazione seria di Patricia avvenne quando era minorenne, dai 14 ai 15 anni. Il pretendente era un uomo trentenne molto ricco. Fu lui a portarla a San Paolo, a pagarle gli interventi al naso e al seno e le diede una vita da sogno.
Dopo quattro anni di matrimonio, l’uomo ha iniziato a provare attacchi di gelosia, a vederla come uno dei suoi averi e la relazione ha iniziato a diventare estremamente offensiva. Dopo che la situazione divenne insostenibile, Patricia lasciò la sua vita e tornò a Rio de Janeiro.
Completò i suoi studi ma ebbe difficoltà ad entrare nel mercato del lavoro formale. L’angolo era diventato seducente, dopo tutto era dove c’erano altri travestiti, e anche l’unica opzione. Da quel momento ha pagato le bollette come prostituta, una realtà per molte persone trans e travestiti nel mondo. Secondo Antra, si stima che il 90% dei travestiti in Brasile lavori come prostitute, la maggior parte non per scelta, ma per pregiudizio e imposizione sociale.

Non è un piacere far parte di un gruppo marginale. Nessuno che si prostituisce è totalmente felice“, ha detto. “Guarda, la prostituzione è come una droga, una dipendenza, qualcosa che assorbe tutta la tua energia e ti rende schiavo. Può finire. Ma ho creato uno scudo che separa il mio corpo dall’anima. Quello che vendo è il mio corpo, mai la mia anima. E questo si libera”, ha detto a Marie Claire nel 2008.

All’età di 17 anni, entrò pornografia, essendo conosciuta e pubblicizzata come Patricia Chantily o Patricia Dollface. Il primo film è stato Rogue Adventures 5 nel 1999, in cui ha interpretato una doppia scena con Julio Vidal, che ora è un pastore evangelico, e Fabio Scorpion, un’icona porno che morta nel 2004 dopo l’intervento chirurgico per applicare silicone al polpaccio. Ha recitato in altri 11 film, sempre come highlight della copertina. Ha anche registrato con Camilla de Castro, icona di bellezza trav e sua amica, che si è suicidata nel 2005.
Poi, si imbarcò per l’Italia. È stato in grado di guadagnare molti soldi e aiutare la sua famiglia con proprietà, come la casa che ha comprato per i suoi genitori. Patricia ha rivelato che, nonostante fosse abbastanza fortunata da non aver incontrato clienti aggressivi, conosceva il lato malsano della competizione con altri travestiti e donne transgender. “È un mondo sotterraneo marcio e triste. Dal momento che tutti hanno sofferto così tanto, affrontano la vita in modo duro e predatorio. Ho cercato di adattarmi ”, ha ricordato.

Tra le rivelazioni più sorprendenti, Patricia ha affermato di aver persino lavorato come escort a Dubai, negli Emirati Arabi Uniti. Uno sceicco arabo era rimasto incantato dalla bellezza dei travestiti brasiliani e aveva ingaggiato Camilla de Castro e Patricia. Dato che Camilla ha avuto problemi personali, Patricia ha dovuto intraprendere questa avventura da sola. “Lì ho indossato il burqa per non subire pregiudizi. Sono stato avvisato di guardare in basso e di non affrontare nessuno”, ha detto a Contigo!

LA BELLEZZA DI UNA STELLA
Patricia aveva già innumerevoli foto e saggi diffusi su Internet. I temi variavano da fan, liceo e sposa brasiliani. Nel 2009, è stata la prima modella trav a posare quasi mentre veniva al mondo per la copertina della rivista di carioca “A Gata da Hora”, uno spazio solitamente usato dalle muse di cisgender, come Mulher Melão. Su clic, è apparsa accanto a Paloma Sanchez. Un produttore ha dichiarato che voleva che i lettori facessero confronti.
Due anni dopo, la modella si stava preparando per le prove della Virgula Girl, fotografata da Gabriel Quintão, scattata all’interno dell’ex club della chiesa Gloria, in 13 de Maio Street. Lei stessa ha scelto il costume da un negozio specializzato in pezzi sexy e ha condiviso con me i costi di un pezzo di medagliee.

Dietro le quinte, ho sentito che era in qualche modo insicura nel far fotografare alcune parti del suo corpo, il risultato di alcune reazioni puntuali del silicone industriale – un prodotto che non doveva essere applicato al corpo umano, ma era ed è ancora frequente nella costruzione dell’identità del travestito. . Ma con un po’ di trucco sul sedere e sulle gambe, eccola lì, pronta a lavorare su foto sexy, non erotiche e prive di nudità.

Una volta iniziate le foto, Patricia è completamente cambiata. Era una modella che conosceva i suoi angoli, i volti, le bocche migliori e una persona che possedeva e si innamorava del suo corpo. Non aveva quasi bisogno di una direzione e in meno di un pomeriggio tutto era pronto. Sì, la trav più bella del Brasile non si è ritenuta perfetta, ma ha sottolineato: “Ho una stella e questo fa la differenza”. In effetti brillava.
La giornalista della CSI Monica Apor, che lavorava alla RedeTV !, era lì per un articolo su Patricia e il titolo di più bella del Brasile. La giornalista ha anche chiesto se non sarebbe stata una bellissima candidata – in un momento in cui Nicole Bahls e Juju Salimeni avevano rimosso da RedeTV! Patricia si burlò di essere timida e settimane dopo fu effettivamente citata. Quindi la giornalista voleva sapere se Patricia fosse davvero rimasta con il giocatore Adriano Imperador. Lei disse: “La mia bocca è una tomba”.

MODELLA E ATTRICE
Con molti titoli di bellezza, fama per i film per adulti e entusiasmo per le prove, Patricia potrebbe rimanere una musa tra i travestiti e i loro ammiratori. Ma è andata oltre. La cosa più sorprendente è che è riuscita a far scoppiare la bolla, aggirando il pregiudizio per essere travestiti, il pregiudizio per aver lavorato come prostituta e il pregiudizio per aver parlato apertamente di tutti questi problemi.
Nel 2009, è stata onorata dal designer Beto Neves, del marchio Complexo B, che l’ha chiamata a sfilare nella moda alla moda Rio. L’invito è arrivato perché Beto ha portato nella sua collezione un tributo ai trucchi e alla boemia di Lapa, che ha riunito molte tribù, tra cui. li travestono. La presenza della nuova modella, avvenuta un anno prima del fenomeno Lea T, risuonò sulla stampa che fece un confronto con Gisele Bündchen.

Grazie alla sfilata, Patricia ha continuato a rilasciare interviste per programmi TV, a registrarsi per lavorare come attrice e aveva aperto le porte per dare alcuni consigli. La prima è stata una partecipazione alla soap opera A Luz do Sol, di TV Record. Nello stesso anno, faceva parte della serie A Lei e O Crime di Record, dove un travestito sessuale professionista viveva con un rubacuori da soap opera e veniva assassinato. L’episodio ruota attorno a questo omicidio.

In un’intervista a NLUCON nel 2011, l’attrice ha dichiarato che tutte le ripercussioni della parata e delle partecipazioni erano positivi, ma questo l’ha spaventata. Rivela che ha cercato di entrare in un’agenzia di modelle, ma aveva chiuso le porte nella prima conversazione. Il proprietario dell’agenzia ha dichiarato che era impossibile metterla al casting perché era un’agenzia familiare e molti genitori non vorrebbero vedere un travestito accanto alle loro figlie della CSI. “Fuori dal Brasile è diverso. A Roma, una ragazza mi ha chiamato per un lavoro in bikini. Penso che il pregiudizio si spezzi quando ne abbiamo l’opportunità.”

Un altro invito è arrivato nel 2013. Patricia si è unita al cast del romanzo di TV Globo Salve Jorge, scritto da Gloria Perez. Era Priscilla, un travestito che era stato ingannato da Wanda (Totia Meirelles) e che era stato trafficato in Turchia per prostituirsi. Fu lì che Patricia fu in grado di mostrare il lato dell’attrice, con il discorso, la recitazione e lo scambio di adesivi con artisti cisgender come Adriano Garib, Nanda Costa e Roberta Rodrigues in prima serata dalla TV. Alla fine, ha fatto un punto nel film “Il venditore passato” con Lazaro Ramos, che sono andato a vedere al cinema solo grazie a lei.

PREGIUDIZIO ED INVIDIA
Alla fine di settembre, tutti erano ansiosi di vedere le sensuali prove di Patricia Araújo a Virgula Girl. Il sito UOL ha pubblicato l’articolo con il titolo “Patricia Araújo: lasciati sorprendere dalle prove sensuali di questo travestito” tra i temi più importanti della giornata. Nel solo giorno di debutto c’erano oltre 2 milioni di visualizzazioni di pagina, molti complimenti e molti nemici.
In un discorso tempestivo, Patricia ha dichiarato di aver chiuso il pregiudizio nel cassetto e di non pensarci. Altre volte, ha detto di aver affrontato molta invidia e persecuzione. Sia da altri travestiti, donne cis e persino uomini gay. “A volte sono in un negozio e arriva una donna, sembra invidiosa e poi inizia a ridere. Proprio oggi una donna è passata con il suo ragazzo e quando ha visto che mi guardava, ha detto: “Non è una donna, è un travestito”.

Dopo le prove, Patricia curiosamente ci ha chiesto di celebrare le foto in una sauna gay a San Paolo, che aveva frequentato per molti anni. All’arrivo, abbiamo dovuto fingere di essere fidanzati e lei è entrata solo perché la documentazione era ancora con il nome di registrazione e il sesso assegnato al maschio. Mentre Patricia attraversava questi corridoi, tutti i ragazzi iniziarono a inseguirla, respingendo tutti gli uomini che aspettavano ai tavoli. Il successo è stato così grande che i clienti hanno iniziato a lamentarsi della presenza della modella e il proprietario della sauna è venuto a chiedere il nostro ritiro.

Siamo partiti presto perché abbiamo ricevuto un invito ad andare a The Week, un club d’élite a San Paolo noto per i muscolosi gay. È stato straordinario vedere la pista aperta per l’attrice ballare e samba in un mix di elettronica e samba. Ma era disperata poco dopo vedere diversi travestiti, donne trans e cis che spingevano, si tiravano i capelli, si mettevano in piedi e si prendevano in giro. Non reagì, ma non chinò la testa.
Potrei elencare una serie di lamentele da parte di Patricia su tali persecuzioni, che vanno dalle lamentele quando era fuori dal Brasile, agli haters nelle storie a cui ha partecipato, alle lamentele delle attrici quando è stata invitata a soap opera. Anche quelli che dovrebbero essere i primi a sostenerla hanno trovato assurdo condividere lo spazio con una porno star e hanno cercato di boicottarla.

Per molto tempo, parlare dell’esistenza di un travestito e di un’attrice trave è stato visto con scherno e disprezzo, soprattutto era associato alla prostituzione. Ma nonostante tutte le pressioni ed essendo estremamente triste, Patricia è rimasta ferma nel suo sogno.
“Ho sempre voluto brillare. Ho avuto questo sogno di avere successo, ma non tutti lo capiscono. Ho talento e tanta voglia di riuscire. Avevo solo bisogno di una buona opportunità“, ha detto a Contigo! nel periodo Salve Jorge.

AMICIZIA
Ho fatto innumerevoli storie con la modella e l’attrice. Dalle sue apparizioni in TV, altri saggi, consigli sulla soap opera e altre interviste. Ha anche partecipato alla rubrica “Trans in dibattiti”, in cui le persone trans hanno espresso opinioni esclusive su un’ampia gamma di questioni. Tra questi, Patricia ha affermato se l’uomo a cui piaceva la parodia fosse gay. “Sono etero, la nostra immagine è femminile e le persone gay non sono interessate a questa immagine”, ha detto.

Patricia aveva paura di uscire con le storie di NLUCON perché diceva di essere sempre perseguitata dai nostri lettori. Ma era principalmente dovuto al rispetto che aveva per me, alla ripercussione positiva con un’altra parte e a non deludermi quando tutti gli altri siti hanno pubblicato qualcosa.
Abbiamo parlato di tutti gli argomenti e abbiamo avuto momenti di amicizia innocente, sincera e di coppia. Una volta è venuta a San Paolo in auto con un ragazzo e ci ha accompagnato a Hopi Hari. In un altro, ha comprato una maglietta con la frase “Good Vibes” per il suo compleanno. Quando sono tornato a casa dal lavoro in una delle sue visite, ho appena riconosciuto il mio appartamento perché aveva fatto una pulizia generale. Mi ha anche incontrato alcune volte nel suo appartamento di Copacabana, ha preparato una deliziosa pasta e persino brindato all’arrivo di Papa Francesco.
Non dimenticherò mai la notte in cui ero triste e lei mi ha accompagnato in spiaggia. Ho detto che una buona nuotata nel mare mi avrebbe fatto reintegrare la mia energia. Mi portò in spiaggia all’alba e mi stava fotografando in quel momento magico. Non dimenticherò mai le notti in cui abbiamo parlato della vita, della società e delle strategie per voler rimanere in vita.

Rileggendo alcune interviste, mi permetto di dire che ci siamo riuniti perché la chat ha superato l’argomento che la maggior parte di loro si aspettava e incoraggiava per lei: il sesso. “La mia più grande afflizione è sapere che rappresento il sesso. Nessuno mi chiede se ho letto un libro , nessuno vuole chattare o portarmi al cinema. Sono sinonimo di sesso e questo mi lascia desiderare un tipo di amore che non sia legato al sesso o ai soldi“, ha detto a Marie Claire.
Alcune persone hanno anche detto che era molto difficile da affrontare e che a volte era snob. Mi chiedo se il comportamento non sia stato solo un guscio che ha sviluppato durante la sua vita per sopravvivere e combattere le violazioni subite.

CARNEVALE E GRIGIO
Un altro momento saliente della vita di Patricia è stata la notevole presenza nei carnevali di Rio. Ricordando che i travestiti sono sempre stati enfatizzati nel periodo di carnevale, con balli rivolti ai travestiti o con la presenza nelle parate tradizionali. Ricorda che la prima regina di tamburi della storia è stata un travestito: Eloina of Leopards, dei Hummingbird, nel 1976. Patricia ha sfilato dal Cap 2000 a Caprichosos de Pilares, Portela e Grande Rio.
È diventata una musa ispiratrice di Porto da Pedra e un punto culminante della gioventù. Nel 2007, ha persino superato il tradizionale “aereo Globo” e racconta che William Bonner ha offerto il complimento, anche se non la conosceva: “Sei bellissima tra le donne”, sottolineando che era una delle donne più belle del Brasile.

Ma è stato nel 2014, quando Patricia ha rappresentato Alamoa per i giovani nel reparto di Fernando de Noronha, che ha avuto luogo un episodio controverso e tragico. Aveva il seno esposto e prominente quando un paparazzo iniziò a scattare in modo strategico sotto e le foto mostravano parte del suo genitale. La stampa ha sfruttato il “fermo”, ha messo in evidenza alcune parti del corpo in posizioni che non la favorivano e Patricia è stata duramente criticata, offesa e derisa sui social network.
Diverse persone hanno cercato di difenderla, dicendo che era ovvio che avrebbero visto un genitale sotto il suo bikini (“ci si aspetterebbe di vedere un pappagallo blu?” Come suggeriva Sayonara Nogueira) ma abusi verbali, critiche e insulti – anche da parte di persone che sostenevano di sostenerla – erano troppo forti per lei. C’erano quelli che dicevano che lo faceva apposta per apparire. Ma tutta questa esposizione fecero piangere Patricia, voleva ritirarsi e provare una vita isolata.

Vita e depressione
Volendo fare affidamento sull’anonimato, Patricia è diventata bionda del tempo, ha viaggiato di nuovo in Europa e ha persino cercato di aprire un salone di bellezza a Rio de Janeiro. Nel 2016, ha accettato di parlare con noi: “Sto vivendo la vita, prendendomi cura di me stessa, preferendo essere più anonima. Dopo tutta l’esposizione che ho avuto, ho dovuto fare una pausa, andare in pensione e pensare a tutto. C’erano molte persone false che si avvicinavano, molta energia negativa. E io sono di pace, amore e mi piacciono le energie positive.
Alla domanda se avrebbe rinunciato alla sua carriera artistica, ha dichiarato: “Le buone opportunità per i travestiti appaiono una ogni dieci anni. Quindi non puoi contare solo su questo lavoro e non puoi nemmeno pensare a questa carriera. Non è come le attrici (cis) che riparano intere soap opera e stanno già pensando alla prossima. Per le attrici trav e transgender manca l’opportunità di lavorare, per mostrare davvero il nostro talento”.
Nel 2017, Patricia iniziò ad avere una grave depressione, tentò il suicidio e fu salvata in tempo. Riferì che una rissa in famiglia l’avrebbe peggiorata. Questo lunedì (08), diverse persone iniziarono a chiedermi se fosse morta. All’inizio dissi di no, non da ultimo perché mi aveva fatto un brutto scherzo qualche anno fa e mi aveva fatto arrabbiare e fatto molto male. Ma sfortunatamente questa volta non è stato un modo per chiedere aiuto. La morte è stata confermata.

Patricia è deceduta giovedì (04), dopo essere stata ricoverata in ospedale per 10 giorni con problemi di salute derivanti da una depressione all’ospedale comunale Doctor Arthur Ribeiro de Saboya di San Paolo. Era rimasta senza fiato, lasciando desolati amici, famiglia e fan. Il corpo è stato portato a Rio de Janeiro sabato (06) e sepolto domenica (07) a Governador Island, dove è nata. La famiglia non voleva che la stampa o altri fossero a conoscenza della morte, ma dopo che le voci erano state confermate, tutti i siti l’hanno annunciato.

Aveva solo 37 anni quando se ne andò, parte dell’aspettativa di vita molto bassa di una persona trans in Brasile, che ha 35 anni. La morte precoce è stata dovuta anche alla depressione e alla mancanza di accoglienza a cui sono sottoposte le persone LGBT. Nella nostra ultima conversazione, ho chiesto: “Patricia, stai bene? Sei molto importante per me.” Lei rispose:
“Sto molto meglio, amore. Ho iniziato a uscire di più, va bene, gruppi di amici. Ho fiducia che questo fosse tutto per rafforzarmi. Sei molto importante. Diamo forza l’un l’altro e andiamo avanti. Rideremo ancora ad alta voce, ne sono sicura. Siamo buoni e nessun male ci raggiungerà. “

Sappiamo che Patricia non ha bisogno di essere paragonata a nessuna donna cisgender, come hanno spesso cercato di fare. Era sempre Patricia Araújo e scrisse il suo nome come una dei trav più importanti e notevoli. Forse riaffermando la sua bellezza e riconoscendola ancora una volta per le aspettative degli standard binari e cisnormativi della femminilità, che non possono sempre essere misurati dalla regola di tutti, non dovrebbe più essere uno dei soli fattori per elevarla a qualcosa. Patricia ha conquistato il paese per la bellezza fisica a un livello, ma era oltre.
Era amica, figlia, sorella, talentuosa, divertente, sorridente, modella, attrice, preoccupata l’una dell’altra. Era brillante, unico essere umano che ha fatto la storia e che è gravemente mancata nella vita di molte persone.

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